Desenhando a linha - Capítulo 2



Já fiz esse percurso do aeroporto para a cidade inúmeras vezes nos últimos três anos. Mesmo sendo rotina, nunca o acho monótono. As montanhas do norte são únicas.   

O ônibus faz sua primeira parada na cidade, reconheço o grande prédio amarelo no porto. Me sinto em casa.  

 

Dez minutos de caminhada e chegamos à casa dos meus pais. A casa continua exatamente como era na minha infância. Paredes amarelas, jardim na frente, entrada calçada por pedras. E aposto que mamãe fez bolo de chocolate. 

“Vamos lá”, digo segurando a mão de Bjørn enquanto caminhamos em direção à entrada. Depois do segundo toque, mamãe atende a porta e se surpreende ao nos ver. “Querida, pedi que me informasse que horas chegaria. Não preparei nada para vocês. Olá, Bjørn”. Diz ela, emendando as frases e abraçando nós dois ao mesmo tempo. “Entrem”. 

Bjørn e mamãe se sentam na sala de estar. Fico andando pelo cômodo, olhando as fotografias antigas e me lembrando de momentos que minha memória por si só já não é capaz de lembrar.  

“Querem algo para beber?” 

“Água, por favor”. Diz Bjørn, com toda a sua educação exemplar. 

“Bolo! Você fez aquele bolo de chocolate que tanto amo?” Pergunto entusiasmada. 

“Claro que fiz! Desde quando não tem bolo de chocolate nessa casa? Seu pai adora”. Ela termina a frase já entrando na cozinha. 

“Papai ainda está no trabalho?” 

“Sim, mas chegará em poucas horas.” Diz ela ao me entregar um prato com bolo e outro para Bjørn. Seu sorriso é bobo e orgulhoso. “Sente - se, menina. Não vai comer em pé, andando pela casa”.  

Me sento ao lado de Bjørn e começo a devorar o bolo. Está uma delícia e é do jeito que eu me lembrava. Mamãe costumava fazê-lo sempre que eles passavam as férias comigo em Oslo.  

“Alguma novidade? Como vocês estão?” Digo de boca cheia.  

“Estamos bem”, diz, dando de ombros. “Seu pai continua trabalhando, porque não tem o que fazer em casa e eu fico em casa, porque já trabalhei o suficiente. Com o seu retorno, terei algo com o que me ocupar”. 

“Te darei muito trabalho, para compensar o tempo longe de casa”. Digo piscando o olho para ela.  

Minha relação com meus pais é tão boa quanto pode ser. Nenhum drama ou grandes desentendimentos. Sempre tive uma ligação muito forte com meu pai, a gente se entende no olhar, ele faz as coisas fáceis assim. E mamãe é minha melhor amiga, a pessoa com quem eu gosto estar para me divertir. 

“Eu limpei a casa para você e também separei algumas coisas antigas que talvez você queira levar para a casa nova. Está tudo no seu antigo quarto”. 

“Obrigada, mãe.” Beijo o rosto dela e a abraço apertado.  

“Vou deixar vocês a sós para escolherem o que quiserem com calma e vou preparar o jantar. Me chame se precisar de alguma coisa, ok?” 

“Chamo, sim” respondo. “Te amo, mãe” 

Meu antigo quarto continua o mesmo. A escrivaninha branca ainda é a morada de meu abajur em formato de globo terrestre, ao lado dele a caneca preta está cheia de canetas coloridas e um exemplar de Kafka on the Shore permanece no mesmo lugar que o deixei em minha última visita.  

“Trabalho duro pela frente”. Bjørn sorri me entregando uma das caixas. 

Abro a primeira caixa que ele me entrega e retiro o conteúdo. Bem no topo, há fotos de infância, alguns discos de vinil antigos e livros. Passo os dedos por eles e me lembro com exatidão de como cada um deles entraram em minha vida. Pego um vinil em que a capa amarela diz “The Avett Brothers”, a canção Morning Song começa a soar em minha mente como se saída de auto falantes. A nostalgia é uma coisa curiosa. 

“O que é?” Pergunta Bjørn, curioso. 

“The Avett Brothers. Ganhei esse álbum em minhas férias de verão em Valencia há quase dez anos." Quando era mais nova, adormecia todas as noites ao som de algum vinil. É um hábito que não deixei para trás e que divido com Bjørn.  

“Acho que deveria trazê-los para casa”. 

Separo algumas fotos antigas e meus diários. Passo as mãos por cima das fotos, todas estão cheias de pó. Fotos de escola, Natal, Dia da Constituição, momentos com amigas e dois ou três ex-namorados. São três caixas, não abro nenhuma delas desde que me mudei para Oslo.  

A porta do quarto se abre revelando o sorriso enorme de papai. Pulo em seu abraço assim que ele adentra o quarto. 

“Hei! Aí está você!” Meus olhos vão  direto para ele. Ele está me encarando, com um sorriso enorme no rosto e os olhos brilhando. Seu cabelo é castanho-claro misturado a vários fios brancos. Seus olhos são claros, diferentemente do restante de seu corpo. Olhos azuis de verdade, azul da cor de diamantes. Ele pisca algumas vezes e vai em direção a Bjørn para abraçá-lo. 

“Pensei que não os encontraria aqui. Imagino que estejam cansados. Como foi a viagem?” 

Bjørn me encara por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se deixaria a resposta para mim ou não. Depois responde: 

“Foi ótima, vôo tranqüilo. Mas acredito que Liv esteja um pouco cansada, já que está acordada desde antes do sol nascer.” 

“Acho que deveríamos todos descer e comer alguma coisa. Christina pediu para avisar que o jantar está servido”. 

Recolho as caixas com meus antigos pertences e sigo atrás deles.  

 

“Acho que o importante é fazer diferença”, diz mamãe, “A concorrência é uma professora boa”. 

“O que percebo é que muitos escritores não entendem que estar nas livrarias não garante público. Não estamos falando de 'mudar o mundo', mas de desenvolver algo que também agregue alguma publicidade para o autor” diz Bjørn. 

Os dois ficam em silêncio por um tempo, os copos e talheres tilintando ao serem usados. Coloco um pedaço de peixe na boca e começo a rir em voz baixa. 

“Um pouco batido, não é?” Bjørn questiona ao mesmo tempo em que mastiga uma porção de salada.  

“Não. Jamais. Eu gosto de ouvir você falar sobre trabalho. Você é apaixonado pelo que faz e isso é inspirador.” 

“Acho que sou eu quem precisa de inspiração.”  

“Não penso que você precise disso. Imagino que já esteja com o futuro bem-planejado. Você é jovem e está iniciando sua carreira, ter planos concretos para o futuro faz de você uma pessoa preparada.” Responde papai. 

“Quais seus planos, Bjørn?” mamãe quer saber. 

“Bom, meus pais pensam em expandir os negócios, criar filiais ao longo do país, ao menos mais dois novos escritórios. Isso vai facilitar para os autores e também para quem está responsável pela escolha dos títulos para publicação. Temos algumas viagens para captação de clientes e sobre as inovações de mercado. As vantagens de editoras pequenas como a nossa é que publicamos autores iniciantes e independentes, o que gera mais variedade de público. Os autores tem mais flexibilidade e participação no projeto editorial, nos contratos e na agenda de publicação. Eles têm equipe especializada para trabalhar no livro e não cobramos do autor para publicar.” 

“Isso é importante, pois dará mais oportunidades para quem está iniciando a carreira como escritor” posso ver os olhos de mamãe brilhando em orgulho. “Quais as desvantagens desse tipo de publicação?” 

“Limitação na distribuição do livro é um deles. As grandes livrarias querem títulos de autores famosos, porque são esses que trazem lucro. Então muitos autores iniciantes e independentes não têm acesso às grandes redes de livrarias. O que tenho em mente é a mudança com relação a limitação à divulgação do autor e do livro, principalmente nas mídias tradicionais. Vivemos na era das mídias digitais e elas rendem mais visibilidade que anúncios para a TV com um custo muito menor. Com mais visibilidade também poderemos aumentar o tamanho da tiragem, o que ainda é decidido pela editora. Pois, baseamos o tamanho da tiragem ao tamanho da visibilidade que o autor tem.” 

Bjørn toma um gole de água e continua “De qualquer forma, eu não estou falando do que poderemos fazer no mês que vem, são planos para o futuro.”. Faz uma pausa, como se vislumbrando uma ideia fantástica. Arruma o corpo no assento duro até apoiar as costas na cadeira fria.” 

“É fascinante. Com todas essas possibilidades vocês podem abrir as portas para muitos autores.” diz papai. 

“Estou empolgado e ao mesmo tempo morrendo de medo.” Sua mão segura a minha sobre a mesa, como para acalmar os nervos. Achando graça na aflição dele, mamãe estende a mão para tocá-lo o ombro em sinal de apoio e orgulho. 

 

Depois do jantar me acomodo no sofá, minha cabeça no colo de Bjørn, estou a ponto de dormir com a sensação reconfortante dos dedos dele passeando pelos meus cabelos. Eu o observo por entre os cabelos loiros caídos sobre meus olhos. Ele está recostado no sofá e, mesmo iluminado pela luz fraca da sala, parece tão lindo e interessante quanto na primeira vez que o vi. Olhos fechados, o sorriso satisfeito que languidamente contrai o lábio superior, a luz do abajur iluminando um lado do rosto, ele parecia estar sempre posando para uma fotografia. Ainda com os olhos fechados, ele exala uma respiração profunda pelo nariz. Sabia muito bem que estava sendo observado. Não sei como ele pode fazer isso, mas sempre sabe quando o estou observando.  

“Eu posso imaginar como você vai ser aos cinqüenta anos” falo, um tom de malícia na voz.  

Bjørn sorri e abre os olhos. Alguma coisa em sua expressão divertida faz a música Chariot de Jacob Lee, pular em minha mente e, como em um palco a um metro de mim, ouço sua voz suave em minha mente. 

 

“How do you do that with your eyes? 

You know it gets me every time 

I swear I wish I could read your mind 

'Cause I ask the same question every night” 

 

“Então, diga”. Sua voz soa divertida. 

“Tudo bem…” imagino toda a cena em minha mente e começo a falar enquanto seguro o riso.  “Você vai estar em Florença, num desses lugares antigos que vendem primeiras edições caríssimas e raras, e o mais incrível nessa visão é que você estará usando uma bolsa de couro idêntica a que Johnny Depp usa em The Ninth Gate.”. Ele aperta os lábios tentando reprimir a gargalhada que está prestes a estourar.  

“Bom, isso é legal, se não fosse pelo fato de eu ser um advogado e não um vendedor de livros. Casado?” 

“Claro! Vocês viajam para Galápagos ou algo assim todos os anos, e se hospedam em um daqueles hotéis chiques na beira do mar e passam a noite bebendo champanhe.  

“A minha esposa não se parece muito com você”. Observa com deboche. 

“Então acho melhor irmos embora para tentar concertar isso e garantir o nosso futuro.” Ele ri alto e diz “Não sei de onde você tira essas ideias.” 

 

Minha casa fica no centro da cidade, próxima o suficiente do mar, mas não tão distante da casa dos meus pais. Há várias lojas, cafés e restaurantes a poucos minutos de caminhada. As lojas estão fechadas, pelo horário avançado, mas ainda é possível conseguir alguma diversão e comida nos cafés e restaurantes que permanecem abertos até às dez da noite durante o verão. A maior atração da cidade é o clube de motoqueiros no porto. O prédio é datado de 1920 e chama atenção pela sua fachada colorida e o nome Rampe-Strek em formato arredondado. Durante o verão vários turistas curiosos enchem as mesas, tomam suas bebidas cheias de álcool e gritam por cima do rock alto que sai dos alto falantes. 

 

Papai estaciona o carro na garagem, e, aos poucos, descarregamos as caixas e minhas duas malas grandes. Me sentindo grata por ser verão e não ter toneladas de neve no caminho. “Vocês precisam descansar. Nos vemos amanhã. Me ligue se precisarem de alguma coisa.” Me despeço dele com um abraço e me jogo no sofá.  

“Comi tanto que só penso em dormir” Digo, me aconchegando ao corpo dele. “Mas acho que preciso de um banho”. 

“Acho que posso te ajudar.” Agora a mão dele está no meu quadril. 

“...por favor?” Minhas palavras saem como um pedido. A mão dele alojando-se na pele quente da minha coxa. “Na verdade, acho que deveríamos subir” digo. 

“Bem, isso depende.” ele se inclina e me beija lentamente. “Defina o que você entende por subir”. A mão tateando a base da minha coluna, uma perna enfiada entre as minhas. “A propósito…” murmura ele, a boca colada na minha. 

“O quê?” Sinto a perna dele enlaçar a minha, me puxando mais para perto 

 


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