Desenhando a Linha - Capítulo 3



Bjørn expira pelo nariz e eu me ajeito na cama, o sol ilumina o quarto com suas luzes douradas brilhantes, examino as paredes ao redor, sabendo com absoluta certeza que preciso fazer algumas mudanças na decoração. Talvez pintar as paredes de azul, pendurar algumas fotografias e comprar um abajur novo. O velho abajur parece desolado junto à cama grande. O lençol cheira a sabão em pó. Penso em fotomontagem, as fotos antigas misturando-se com desenhos em tons neutros. Paisagens, formas geométricas, animais; o que usar para preencher os espaços? 

Pego meu celular e meus fones, meus dedos deslizam pela tela, parando na playlist de sempre. Um segundo depois a melodia de Trampoline surge alta, diminuo o volume alguns decibéis antes de a voz de Zayn surgir suave e confortável.  

Com vinte e cinco anos, a visão que tenho do futuro não é mais nítida que a da maioria das pessoas de minha idade. Nunca tive um grande plano pra vida, e já tropecei aos montes em escolhas ruins.  

Silenciosamente me levanto e rumo para o banheiro, Bjørn continua a respirar pesadamente. O cobertor lhe cobrindo parte do abdome, o braço direito embaixo do travesseiro, sinto vontade de tocá-lo. Fecho a porta do banheiro para desistir da ideia de acordá-lo.  

De frente pro espelho meu estômago ronca enquanto penteio meu cabelo desgrenhado com a ponta dos dedos. Limpo as  manchas de pasta de dente nos cantos da boca e decido preparar o café da manhã.  

 

 

“Nem acredito que dormi até tão tarde.” Bjørn sorri entrando na sala. “Deveria ter me acordado.” 

“Aproveitei para colocar algumas coisas no lugar e organizar a lavanderia. Tem café na cozinha, se você quiser.” 

“Não parece uma má ideia.” Ouço seus passos preguiçosos seguindo em direção a cozinha. 

“O jardim dos fundos está malcuidado. Pensei em fazer uma limpeza. Não tenho ideia se deveria fazer algo em específico, pois o inverno está se aproximando.” 

Bjørn se aproxima da janela para observar o jardim. “Podemos pensar em alguma coisa para o próximo ano, acho que já é tarde para este verão.” Satisfeita com a resposta, chego um pouco mais perto, sentindo o cheiro dele, morno, fresco e maravilhoso.  

“Você tem algum plano pra hoje? Mamãe nos convidou para jantar. Na verdade, é um jantar de boas vindas, segundo ela. Provavelmente haverá mais pessoas.”  

Ele confere as horas e diz “Isso significa que temos duas horas para comprar algum vinho. É melhor a gente se apressar.” 



 

Quarenta minutos depois, estamos pagando uma pequena fortuna por três garrafas de vinho italiano. Mamãe já está com o jantar praticamente pronto quando chegamos. Fico impressionada com a decoração simples e bonita, habilidade que não consegui desenvolver. Ela tem bom gosto. Meus olhos são atraídos pelas cores neutras do jogo de jantar, todas as janelas estão abertas para receber o ar fresco da tarde. O clima está muito agradável dentro da casa. “Oi, mãe.” 

“Ah, oi, querida. Oi, Bjørn” cumprimenta ela, desviando os olhos do forno. Guarda a luva térmica na gaveta e gesticula para papai. “Como está a iluminação?” diz ela, apontando para cima.  “Querida, você poderia atender a porta. Convidei Cecília e a família dela”, diz como se adivinhando que a campainha iria tocar no segundo seguinte. Ela olha de novo para Bjørn, confusa. Ele apenas sorri e se oferece para ajudar colocando a comida na mesa.  

Do lado de fora vejo dois homens. Um deles reconheço no mesmo instante, o outro não faço a mínima idéia de quem seja.  

“Liv?” Pergunta o mais velho. 

“Stein! Oh, meu Deus! Não te vejo desde antes da faculdade. Você não mudou nada!” - Digo já dando um passo na direção dele para abraçá-lo. Os anos lhe renderam alguns cabelos brancos, mas seu rosto com traços fortes e sorriso largo continua o mesmo. Sinto certo conforto ao vê-lo. 

“Como você cresceu! Seus olhos azuis e os cabelos loiros são os mesmos da sua mãe. Foi assim que te reconheci. Se lembra de Hans?”  

Ele se vira para o homem que está ao seu lado. Ele aparenta ter a mesma idade que eu, veste calças largas, camisa xadrez por baixo de uma pesada jaqueta de couro. As mãos nos bolsos da calça. Os olhos muito azuis me analisando com um sorriso debochado. Os lábios segurando firme um cigarro que acabara de ser aceso. A pele clara e os cabelos loiros brilhando com a luz do sol.  

“Oh, Claro.” Digo meio sem jeito. “Oi, como vai? Não nos vemos há alguns anos. Você parece... diferente.” 

“Bem… nao acho que posso dizer o mesmo sobre você” Um celular começa a tocar, Hans enfia a mão no bolso para checar se é o dele. “Preciso atender, é importante. Nos vemos em alguns minutos.” Diz ele indo para a rua.  

“Cecília chegará em poucos minutos. Ela esqueceu em casa o presente que comprou pra você e voltou para buscar. “ 

“Muito gentil, mas não precisava se incomodar com isso. Oh, meu Deus! Entre. Não posso te deixar aí fora a noite toda” sorrio me sentindo um pouco embaraçada. “Tenho de te apresentar meu namorado.” Como se estivesse ouvindo a conversa, ele se materializa ao meu lado. 

“Sou Bjørn” estende a mão. Stein retribui o aperto de mão, olhando nós dois.  

“Stein. Prazer em conhecê-lo.” Ele volta a atenção para mim e ergue a sobrancelha. “Onde estão Per e Christina?” 

“Na última vez em que os vi, mamãe e papai estavam na cozinha.”  

Assim que Stein sai à procura de meus pais, Bjørn diz entre sorrisos “Não acredito que não me preparei melhor para este momento. Acho que serei apresentado para toda boa parte da população de Harstad.”

“Exagerado”, rio. 

A campainha toca novamente. Os olhos de minha mãe me procuram enquanto ela se afasta para atender a porta. Ela se vira lentamente em minha direção, aponta para mim e para Bjørn. Cecília e Hans caminham em nossa direção e recebo um abraço e um sorriso caloroso da mulher baixinha e de cabelos loiros curtos, que desde a adolescência é a melhor amiga de minha mãe. 

“Por que eu não tinha ouvido que você já tinha chegado?” diz, fingindo estar brava.  

Dou um sorriso discreto. 

“Chegamos ontem, e com a organização da casa, não me lembrei de fazer qualquer outra coisa.” Explico a situação para ela. “Estou muito feliz que mamãe tenha pensado em tudo e nos reunido para jantar.” 



 

O jantar está maravilhoso, mamãe preparou rakfisk e parece ainda melhor acompanhado de vinho branco. Conversamos e rimos, contando histórias antigas e falando sobre planos para o futuro.  

“Vocês se mudaram aqui para perto?” Cecília pergunta. 

“Minha casa fica no centro, perto do clube de vocês. Bjørn não veio comigo. Bom… não por enquanto. Ele tem alguns projetos de trabalho para finalizar e seria inviável fazer isso à distância.” Olho para Bjørn e sorrio carinhosamente “Até então, ele virá todos os finais de semana.”  

“A distância é quase nada. Quando Stein e eu nos conhecemos, também morávamos em cidades diferentes. Na realidade, estivemos juntos poucas vezes antes de decidirmos morar juntos.” 

“Estamos juntos há três anos, a gente não se conheceu agora. A distância não é algo que me preocupa, porque queremos a mesma coisa” digo.  

Bjørn vira o rosto para me dar um beijo leve. Seus olhos estão brilhando em contentamento.  

“Alguém deseja mais vinho?” Ofereço, mudando de assunto. 

“Sim”, três deles respondem. 

Despejo o vinho nas taças e, disfarçadamente, encaro Hans, que passou quase todo o jantar calado. Exceto por algumas poucas frases em concordância ou respostas curtas aos meus pais, ele não conversou muito. Estudamos nas mesmas escolas desde o jardim de infância, mas apesar da proximidade de nossas famílias, nunca fomos realmente amigos. Os interesses dele sempre foram diferentes dos meus e de todos os demais garotos que eu conhecia. O que me fez muitas vezes pensar que ele era solitário. Na adolescência, todas as nossas conversas eram superficiais e educadas. Depois do ensino médio eu me mudei e não o vi novamente. E não é como seu eu perguntasse por ele. Distraída com meus pensamentos demoro a perceber que ele me encara de volta. Meu coração vai parar na garganta e provavelmente estou vermelha de vergonha, porque sinto o meu rosto queimar.  Me sentindo envergonhada, peço licença e sigo para o banheiro, mas vejo quando ele me olha de novo antes que eu saia da sala de jantar.  

Quando retorno, papai está falando sobre trabalho com Stein e Hans. Acho que me esqueci de mencionar que Stein e Cecília são os proprietários do clube de motoqueiros da cidade e, também, clientes de meu pai. Mamãe pergunta se queremos sobremesa, então todos nós começamos a recolher os pratos e substituí-los por algum dos tão famosos e deliciosos bolos de chocolate de minha mãe. Comemos, conversamos e rimos por várias horas. Eu sentia falta disso em Oslo, de estar com meus pais nesse clima de aconchego. A família de Bjørn é incrível e sempre me acolheu como parte dela, mas eles estão sempre viajando e não tínhamos muitos momentos como esse. Quando todos terminamos de comer, Hans começa a recolher os pratos e levá-los para a pia da cozinha. Sigo atrás dele com as garrafas de vinho vazias. 

“Liv?” 

Hans está parado no fim do corredor, alguns pratos com resto de comida na mão. Com um gesto de ombros ele pergunta silenciosamente onde descartar o lixo orgânico. Coloco as garrafas no pequeno contêiner e abro a terceira porta abaixo da pia, indicando para ele o contêiner para lixo orgânico. 

“Puta merda!” exclama ele, depois de deixar alguns restos de comida cair no chão.  

“Pois é. Puta merda.” ambos rimos da situação.  

Ele limpa a bagunça que fez, lava as mãos e recua para me olhar. “Você não mudou nada.” 

O examino com atenção e cautela. Seu rosto de certa forma parece o mesmo, mas ele não é mais o adolescente magrelo de que me lembro. Os cabelos muito loiros estão longos, á altura dos ombros. Os lábios dele são cheios e rosados. Ele é bonito. Eu poderia dizer que ele é muito mais que bonito, mas não me atrevo a dizer isso. “Já eu não posso dizer o mesmo”, respondo. 

Ele olha para si mesmo e ri o mesmo sorriso debochado de quando abri a porta. Ele não é tímido, mas é reservado.  

“Pois é” diz. Estamos nervosos. Bom… eu estou. Então não dizemos mais nada. Ficamos apenas olhando um pro outro. Ele ri, e depois eu rio.  

“Por que você está de volta?” pergunta ele. 

Ele fala de maneira muito casual. Diminui o meu nervosismo. 

“Papai e Mørten me ofereceram sociedade no escritório” respondo, forçando uma réplica tão casual quanto à dele. “Me formei em direito no início do verão.” 

Ele sorri, como se não estivesse nem um pouco surpreso. Olho para a porta, sabendo que devo voltar, mas continuo a falar como se a minha boca tivesse vida própria. “Agora eu sou adulta e independente. Mas não me sinto nem um pouco adulta. E talvez isso soe idiota e infantil, mas não estou preparada para ficar tão longe de casa, me sentindo sozinha. Eu não tinha a menor ideia do que fazer. Recebi algumas propostas de trabalho, mas estar em Oslo não parecia mais tão interessante. Eu sinto a falta de casa, da companhia dos meus pais, da cidade.  

“Te acho corajosa e ousada por sua honestidade. Você se mudou, conheceu pessoas novas, se formou, mas se mantém fiel aos seus próprios princípios. Voltar para onde começou não significa regredir.” Não era exatamente uma linha filosófica, mas ele soou muito sábio e maduro dizendo aquelas palavras. Não era algo que eu esperava ouvir de alguém tão jovem, muito menos dele.  

Ele percebe como suas palavras me pegam de surpresa. Olha em meus olhos por um instante, e entre nós paira um silêncio absoluto. Ele começa a colocar os pratos na lava-louça. Então aponta para a porta. “É melhor você voltar para a mesa. Qualquer dia desses a gente continua a conversa” e continua a encher a lava-louças como se eu não estivesse mais lá. 

Fico boquiaberta e chocada por ele ter me dispensado da minha própria cozinha. Tecnicamente, é a cozinha dos meus pais, mas sendo a cozinha deles, faz dela a minha cozinha também. 

Antes que eu me mova, a porta se abre, e Bjørn entra segurando uma travessa de vidro com o pouco que sobrou do bolo. Ele passa por mim, e abre a geladeira. “Aí está você” diz para alguma coisa lá dentro. “Amor, você quer uma cerveja?” Ele sorri por cima do ombro enquanto me mostra uma garrafa de Nordlands.  Ainda atordoado pela conversa com Hans, automaticamente respondo “Sim. Por favor.” Bjørn me entrega a cerveja e saímos juntos da cozinha. 

Passo o resto da noite mais quieta, as palavras de Hans indo e voltando em minha mente como uma bola de ping pong. Mas não sei se Bjørn ou qualquer pessoa percebem, porque eu continuo a sorrir nos momentos certos e a responder quando exigem minha atenção. Tem algo sobre aquela conversa que me incomoda, não de forma negativa, mas senti que pela primeira vez alguém realmente me entende. Naqueles poucos minutos na cozinha senti que não precisava justificar pra mim mesma ou para ele as minhas razões para voltar para casa. Ele simplesmente sabia. Em meio a conversas e risadas, por fim, consigo colocar meus pensamentos no lugar de novo. 

Lá fora, a lua está alta no céu claro de verão. Bjørn passa o braço ao redor dos meus ombros e caminhamos juntos para casa. Penso conversar com Bjørn sobre o que Hans me disse, mas alguma coisa em mim me faz ficar em silêncio. 

“Talvez nunca volte a vê-lo. Estou dando importância demais para algo tão sem importância.”

digo para mim mesma. Me pergunto se ele ficará chateado se não continuarmos a conversa algum dia. “Mas por que ele se importaria?” continuo o meu monólogo interno. Tenho passado muito bem sem ele durante toda a vida. Até essa noite nem me lembrava dele por vontade própria.  Mas tem algo sobre ele que faz as coisas serem fáceis, honestas. Examino o rosto de Bjørn e sinto uma calma profunda.  

“Então, qual é a sua conclusão?” 

“Sobre o quê?” digo sem saber a quê estou respondendo. 

“Sobre o que você está pensando. Algo tem ocupado a sua mente durante a noite quase toda.” 

“É possível se sentir conectado a alguém que você sequer conhece?” dou uma risada nervosa,

meus lábios bem apertados. 

“Sim.” ele diz sem ao menos pensar “Afinidade. Conexão. Não importa qual nome as pessoas dão a isso. Quando duas pessoas estão em conexão, elas alcançam níveis muito altos de compreensão, mesmo que não digam nada, mesmo que não se vejam com frequência ou nunca tenham se visto antes. Elas enxergam os defeitos uma da outra, pois, são transparentes, e permanecem nessa ligação porque o entendimento é verdadeiro, fácil e simples.”    Olho para ele quase em choque, mesmo sabendo o quanto ele é maduro emocionalmente, ainda consigo ser pega de surpresa.  

“Agora pare de olhar para o meu nariz.” diz ele, beijando meus lábios suavemente. Os olhos azuis brilhantes e astutos. 

 

 






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