Desenhando a Linha - Capítulo 4


“O que devo fazer com essas fotografias antigas?”

Estou sentada no sofá, examinando todas as fotos que encontramos nas caixas que trouxemos da casa de meus pais. Hoje tiramos o dia para organizar o que falta e pintar as paredes do quarto. Bjørn volta para Oslo hoje à noite. 

“Podemos fazer um mural de fotos na parede do corredor.”

Suspiro.

Me levanto e começo a juntar todas as fotos espalhadas pelo tapete. Tenho certeza de que podemos encher todas as paredes com essa quantidade de fotos. Pego a última caixa e tiro todos os discos de vinil que ainda restam, organizando-os por ordem alfabética na estante. Conecto meu celular ao equipamento de som e escolho o modo aleatório, a banda Wild canta Here we go, me fazendo pensar em dias ensolarados e passeios de bicicletas em meio a risadas. A porta dos fundos está destrancada, então a empurro com a caixa cheia de coisas que vou descartar. Depois levo o restante das coisas para o quarto. Bjørn já cobriu todos os móveis com plástico e começou a misturar as tintas. Vou para a cozinha e começo a preparar o almoço para nós. Estou com o coração apertado por saber que passaremos a semana distantes. Não estou com medo. Só estou nervosa. 

Ele se aproxima pelo corredor e entra na cozinha. 

“Em qual parede você quer que seja instalado o papel de parede?” 

Ele aponta para o quarto.

“Estou em duvida entre a parede em que está a cama ou a parede da porta.” Penso por alguns instantes e decido “na parede em que está a cama.”

Ele faz que sim, e retorna para o quarto. Abro a geladeira e fico olhando para o que tem ali dentro até me decidir por uma salada e salmão defumado. Eu me mantenho ocupada na cozinha durante uma hora enquanto ele fica no quarto. Quando entro no quarto, as paredes já estão com a primeira mão de tinta. Bjørn está de costas para a porta ajustando o tamanho do papel de parede na escrivaninha. Está tão concentrado e imerso nos próprios pensamentos que nem percebe que estou lá. Ele ergue os olhos e me encontra. 

“Só mais uma mão de tinta e podemos instalar o papel de parede.” avisa, indicando as folhas de papel. Tem mais alguma coisa que precisa que eu faça enquanto estou aqui?”

Nego com a cabeça enquanto me aproximo e o admiro. O azul cobrindo as paredes é quase do mesmo tom de azul dos olhos dele. É inevitável sorrir com a comparação. A canção Fallen so Young de Declan J Donovan vem do andar de baixo, preenchendo a casa.  Observo o quarto, a paisagem através da janela, e depois olho para Bjørn. Ele está parado a menos de um metro de distância, me observando.

Enquanto o encaro, penso em como é fácil estar com ele e em como será difícil estar distante. Eu não tinha me permitido pensar a respeito, porque ele pode estar aqui em um vôo de uma hora, mas são exatos mil trezentos e noventa e seis quilômetros de distância. Parecia muito menos quando estávamos em Oslo, juntos, fazendo planos para quando ele se mudar. Me pergunto se todos os casais se sentem assim quando precisam estar longe um do outro. Não é insegurança, mas não consigo reconhecer o sentimento. Não é familiar. 

Quando estamos juntos, é fácil acreditar que conseguiremos superar qualquer coisa e estar ao lado um do outro num piscar de olhos.

“Acho que você deveria lavar as mãos para almoçarmos.” Sorrio e encosto meus lábios nos dele. Me pegando de surpresa ele suja o meu rosto com a tinta que resta no pincel. “Seu filho da mãe!” Ele começa a gargalhar e então me beija ardentemente. Sinto o calor que irradia do corpo dele, sinto o choque de eletricidade que vem de nossas bocas coladas.  

“Eu amo você. Eu amo tanto você.” Ele suspira um suspiro fundo. Seus olhos caem sobre a minha boca. Eu posso realmente ouvi-lo respirar. Eu gosto que ele não possa controlar sua respiração ou seus pensamentos agora. Ele leva a mão direita até o meu pescoço e, lentamente, toca a minha pele, levando os dedos suavemente até os meus cabelos. Eu, naturalmente, inclino a cabeça para o lado. Seus lábios pressionam suavemente contra minha pele. Minha mão direita desliza para cima e agarra a parte de trás da cabeça dele. Sua língua toca lentamente o caminho do meu pescoço até minha clavícula. Ele me agarra pela cintura e me levanta, me deslizando para seu colo enquanto nós dois alcançamos o chão. 


Faz duas horas que terminamos a pintura e instalamos o papel de parede no quarto. Agora que tudo está terminado, e que eu trouxe algumas plantas e porta retratos de nós dois, sinto que o quarto finalmente está pronto. Dou uma olhada ao redor, e fico um pouco triste por não tê-lo aqui todos os dias para dividir o quarto comigo. Pego o celular e mando uma mensagem para mamãe com uma foto de nós dois fazendo caretas.


Eu: O quarto está pronto! Você devia vir aqui para ver.

Mamãe: Oi, filha. Não estou em casa. Resolvendo coisas com Cecília. Mas passo aí assim que terminarmos. Mal posso esperar para ver! 


“Sinto como se tivesse corrido uma maratona”. Ele olha por cima do ombro, e noto sua expressão de contentamento, apesar do cansaço. Bjørn vai até o armário, volta para o quarto segurando sua mochila azul da North Face. Tudo no quarto parece combinar: o azul das paredes, o azul da mochila e o azul dos olhos dele. Ele caminha até a cômoda e pega uma de suas camisetas cuidadosamente dobradas. “Meu vôo sai em duas horas” diz ele. Ouvi-lo falar sobre ir embora me deixa um pouco triste. Ele dobra a camiseta mais uma vez e a guarda na mochila que ainda está praticamente vazia. Ao se virar para mim, ele sorri, erguendo as mãos para indicar o quarto. “Está incrível, amor. Fizemos um ótimo trabalho.” Ele põe as mãos nos quadris, e seu sorriso diminui. “Você vai ficar bem?”

De repente, o ar fica mais pesado e fica difícil respirar. Sinto vontade de chorar. Estou feliz por ter voltado para casa, mas fico triste porque não poderemos passar todos os dias juntos como fizemos por três anos. É bom compartilhar todas as pequenas coisas com ele. Agora que ele está aqui e em poucas horas não estará. Já conversamos sobre isso centenas de vezes, mas viver isso é muito mais complicado que as palavras fazem parecer. Eu me aproximo da cama e me sento. Solto o ar demoradamente e faço que sim com a cabeça, ele se senta ao meu lado.

“Por favor, Liv. Não me olhe assim, como se a gente fosse algo do passado. Eu estarei aqui todos os finais de semana e sempre que puder, serão apenas alguns dias distantes. Temos a tecnologia e sabemos que milhares de pessoas fazem seus relacionamentos funcionarem mesmo morando em países diferentes, continentes diferentes.” Sua reação me deixa um pouco menos nervosa, fazendo um sorriso bobo surgir em meu rosto. 

“Talvez eu escreva cartas e as coloque dentro de garrafas e deixe que as ondas do mar as leve para você” dou uma gargalhada alta imaginando a cena. 

“A Noruega tem uma das costas mais largas do mundo, talvez eu receba as suas cartas no meu aniversário de cem anos. Não seria nada prático, acho que e-mails, mensagens e ligações são mais eficazes.” Ele morde o lábio inferior para conter a risada que tenta escapar de seus lábios. 

“Obrigada pela pintura e por toda a ajuda com a organização” agradeço. 

“Não precisa agradecer. Essa é a nossa casa, mesmo que para mim seja só por alguns dias da semana.” Reviro os olhos para ele, porque sei que ele está tirando sarro com a situação. 


Ele solta minhas mãos.

“Estou atrasado” avisa, apontando o polegar por cima do ombro. “É melhor eu ir.”

Faço que sim e o acompanho até a parada de ônibus. Só depois que o ônibus desaparece na primeira curva é que percebo que estou sorrindo. Coloco meus fones de ouvido, Phoebe Bridgers é a escolha da vez. Caminho de volta para casa pensando na letra de Garden Song.


Someday, I'm gonna live

In your house up on the hill

And when your skinhead neighbor goes missing

I'll plant a garden in the yard, then

They're gluing in roses on a flatbed

You should see it

I mean thousands

I grew up here till it all went up in flames

Except the notches and the door frames

I don't know when you got taller

See your reflection in the water

Off the bridge at the Huntington

I hopped the fence when I was seventeen

Then I knew

What I wanted

And when I grow up

I'm gonna look up from my phone and see my life

And it's gonna be just like

My recurring dream



A lembrança mais antiga de minha vida é de quando eu tinha três anos. Papai tinha um toca discos antigo e passava muitas horas durante o inverno sentado ao redor do aparelho. Eu me lembro de escutar meu pai cantando, ele tinha a voz bonita, suave e afinada. Cantava em sincronia perfeita com a melodia que saía do toca discos. Mamãe cobria a mim e a ela com meu cobertor de lã favorito enquanto o ouvíamos cantar distraído. O cobertor era cinza, quente e velho, tinha sido um presente da avó de minha mãe quando ela ainda era uma criança. Tomávamos bebidas quentes e comíamos coisas gostosas enquanto a lareira crepitava. Eu amo lareiras, o cheiro da lenha queimado e o calor confortável se espalhando pela casa e aquecendo o inverno rigoroso do norte que parece congelar os ossos.  

Minha paixão por vinil veio da minha relação com meu pai. Às vezes ele ficava tão absorto na música e nos tantos discos que tinha que parecia não nos perceber ouvi-lo cantar. Eu me sentava no chão ao lado dele e o ajudava a procurar pelo disco que ouviríamos naquela noite. Através do meu pai, discos de vinil se tornaram uma paixão para mim que, felizmente, posso compartilhar com Bjørn. 

Todas as memórias que tenho dos meus pais são boas. Quero que meu relacionamento com Bjørn seja livre como o deles e que possamos criar nossos próprios hábitos. Certa vez, perguntei a meu pai porque ele tinha tantos discos e gastava tanto dinheiro comprando todos eles. Ele sempre foi muito sincero comigo, então, respondeu “quando um homem tem tudo que ama, a única coisa de que ele precisa são algumas canções.” Foi toda a resposta que recebi e por muitos anos não entendi o que ele disse naquela noite. Até que ganhei o meu primeiro álbum de Noah Gundersen. Eu tinha treze anos. Setembro estava chegando e com ele o meu aniversário, e esse era o meu desejo. Quando mamãe perguntou se eu tinha algum desejo de aniversário, prontamente respondi “eu quero o álbum Brand New World de Noah Gundersen”, curiosa, ela me questionou porque, então respondi “quando uma garota tem tudo que ama, a única coisa de que ela precisa são algumas canções.” Pude ouvir a risada alta de papai vindo da sala. Mamãe sorriu o maior sorriso que eu já tinha visto no rosto dela e respondeu “tudo bem.”

 


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