Desenhando a Linha - Capítulo 5


“Não acredito que tenho a minha própria sala.” Digo na direção de papai e recebo um sorriso enorme de volta. “Vou mandar um e-mail para o Sr. Tore, para confirmar a reunião na próxima segunda de manhã. Acho que é melhor eu começar a trabalhar. Preciso ler sobre todos os casos que me foram designados. Mesmo que eu comece efetivamente na próxima semana, quero usar todo o meu tempo para entender melhor os processos e conhecer meus clientes.” Começo a digitar no teclado. “Tio Mørten já chegou?”

Como se tivesse sido combinado, tio Mørten entra em meu escritório.

“Bom dia! Bom dia! Você está bonita, Liv... Essa sala combina com você?”

“Bom dia, tio Mørten!” digo, me levantando e me jogando nos braços dele. 

“Na verdade, eu não esperava te encontrar aqui hoje ou a esse horário. Mas já que está aqui, quer entrar pra uma reunião rápida? Apenas para apresentá-la devidamente para o pessoal.” “Sem problema!” 

Tio Mørten está quase na porta de sua sala quando exclama alto “Como vocês todos já sabem, essa é Liv, a nova sócia do escritório e minha sobrinha favorita. Se quiserem lhe dar um abraço de boas vindas ou algo do tipo, estão todos convocados para a reunião de agora.”



“Hum, seja bem vinda!” Yaya, uma moça tailandesa e minha secretária, EU NÃO ACREDITO QUE TENHO UMA SECRETÁRIA, pára em frente a minha porta, então caminha até minha mesa e me dá o beijo na bochecha mais rápido da história antes de voltar para sua mesa.

“Ah, obrigada” murmuro para suas costas desaparecendo.

“Bem, isso foi estranho”  digo indo atrás dela.

“Caramba, eu sei... desculpa. Aliás, aquele foi o abraço de boas vindas mais mixuruca do mundo.” ela diz, mostrando os dentes ao sorrir.

“Posso ganhar um abraço de verdade agora, por favor?” Me movo em sua direção, rindo enquanto a abraço apertado. “Dessa vez foi bem melhor.” digo para ela. Faço um sinal meio sem jeito com a mão e sorrio timidamente.

“Você está aqui a mais tempo que eu, com certeza vou precisar muito da sua ajuda.” ela sorri segurando uma mexa dos longos cabelos negros.

“Você quer sair hoje à noite?” pergunta de forma casual, arrumando seu vestido envelope azul-marinho.

“Depende. O que tem em mente?”

“É que meu irmão faz aniversário hoje e vamos a um restaurante para comemorar. Talvez você ache divertido.”  

“Tudo bem” digo rapidamente e sorrio. 

Yaya parece uma pessoa divertida e ter companhia não faz mal a ninguém. 


 

Amo listas de tarefas, planners e tudo que posso usar para me ajudar a ser alguém mais organizada. Você acredita em astrologia? Eu sou virginiana, nascida no dia vinte de Setembro. Se você sabe qualquer coisa sobre astrologia, sabe que virginianos são perfeccionistas e organizados.  Algumas pessoas se divertem indo ao shopping, comprando coisas que nunca vão usar ou passando horas no Instagram. Eu me divirto escrevendo as coisas que preciso fazer, e depois riscando-as quando estão feitas. Eu faço isso desde a infância. Sempre tive inúmeras agendas e diários.  

Ligo para Bjørn para falar sobre os meus planos para a noite. De certa forma estou empolgada mais do que pensei que estaria. 

“Oi, amor” ele diz, entusiasmado. 

“Oi! Você pode falar?” procuro um bloco de notas na minha pilha de papeis para ler e comeco a rabiscar desenhos sem sentido.  

“Claro! Ia te ligar nesse instante. Como está seu primeiro dia?” 

Giro sobre mim mesma em minha cadeira giratória.

“Você acredita que eu tenho uma secretária? Porque eu ainda nao acredito. Tio Mørten fez uma reunião para me apresentar oficialmente para todos no escritório. E ela me convidou para sair hoje à noite. A MINHA secretária. Meu Deus! Isso soa tão profissional e adulto. Aniversário do irmão dela, ela disse. Achei muito gentil.” despejo tudo sem dar tempo para responder cada pergunta.

Ele ri alto e zomba “Às vezes você parece uma garota de quinze anos. Mas eu estou extremamente feliz por você estar feliz. Sinto sua falta.”

“Eu também sinto a sua falta. Como estão as coisas por aí?

“Bem, eu acho. Sobre ontem… Eu sei que ontem foi difícil, então eu queria saber como você está.”

“Eu estava… ainda estou um pouco confusa e assustada com todas essas mudanças e por não ter você por perto. Mas você provavelmente também está e acho que ficar me sentindo péssima todas as vezes que você voltar para Oslo, nao vai fazer as coisas mais fáceis para nós. Sabíamos como seria e ambos concordamos que faríamos dar certo pelo tempo que fosse necessário. Ficar chateada não vai nos ajudar em nada.”

“Definitivamente. Me senti péssimo ontem à noite e vê-la tão triste partiu meu coração.”

“Nós podemos deixar isso para trás e tentar fazer diferente na próxima vez?” pergunto.

“Combinado.” ele sorri e sei que seu sorriso alcança os olhos.

“Quais são seus planos pra hoje?

“Sobreviver.” ri de si mesmo. “Temos algumas reuniões antes de encerrar o dia. À noite vou tomar algumas cervejas com Mariann, Nina e Marius. Tenho muitas razões para acreditar que o seu chefe é muito melhor que o meu.”

“Claro que é” rio alto. 

“Amor, tenho de ir pra reunião. Falo com você mais tarde. Aproveite o restante do seu primeiro dia.”

“Obrigada. Eu te amo.”

“Eu te amo mais.”





Sigo com minha lista até 16h, quando vejo algumas pessoas deixarem o escritório, desligo o computador, pego minha bolsa e sigo em direção a mesa de Yaya. 

“Pronta?” ela pergunta, pegando a bolsa e desligando o computador. 

O restaurante asiatico tem inúmeras mesas, as luzes das velas deixa o clima acolhedor. Vamos direto para a mesa onde dois rapazes, um asiatico e o outro noruegues, estão sentados. Eles se levantam assim que nos vê.  Fico sabendo que Leo, um rapaz de estatura mediana, corpo magro e sorriso largo é o aniversariante e, também casado com Peter. Conversamos e rimos durante todo o jantar. Quando o garçom recolhe nossos pratos, Yaya e Peter já estao claramente esperando que o bolo apareça para que possam cantar Parabéns. “Adoro isso. Apesar de ser tão constrangedor.” Leo me confidencia. Sorrio em cumplicidade. Por fim, eles começam a cantoria, e o bolo surge como num passe de mágica.  Leo assopra a vela e começa a cantar em voz alta alguma coisa em um idioma que nao entendo uma palavra sequer. 

“Desculpe, essa gritaria não é do nosso padrão normal” Yaya ri e coloca uma fatia do bolo gigante no meu prato. 

“Meu deus, esse bolo é enorme! Vocês estão esperando outras pessoas?” Digo olhando em direção a porta, a espera de um exército para devorar o bolo de tres andares. 

“Claro que não! É que adoramos comer bolo gelado no café da manhã. Todos os anos faço o bolo de aniversario para cada um de nós e comemos as sobras por dias.” 

“Hummm... está ma-ra-vi-lho-so”, declaro, mastigando a primeira fatia. “Posso obter a minha parte das sobras?” digo de boca cheia. 

“Agora você entende porque o bolo é desse tamanho?” diz Peter, por cima das vozes de Leo e Yaya. 

Limpo o canto da boca com o dedo, tão maravilhada quanto um noruegues ao ouvir o homem do tempo anunciar que vai ter sol e calor. 

“Mais?” Leo pergunta

“Eu não deveria, não há mais um centímetro de espaço em meu estômago, mas… eu quero sim. Uma fatia pequena, por favor.”  rio.

Ele corta uma segunda fatia caprichada para si e uma fatia menor para mim. 

“Deve ser por isso que eu gostei de você assim que te vi. Ninguém gosta de gente que recusa comida, principalmente quando é comida boa.”  Rio alto, me sentindo muito à vontade na companhia deles. 

Quando o último comedor de bolo já nao consegue engolir mais nada, Peter diz “Certo. Peguem seus casacos... vamos sair. Já comemos demais, vamos caminhar e encher a cara.”

As sobras do bolo voltam para a mesa devidamente embaladas. Yaya divide em partes iguais. Guardo a minha parte na bolsa, torcendo para que a embalagem de papel não rasgue ou abra, sujando todas as minhas coisas. 

“Para onde estamos indo?” pergunto. A brisa fresca da noite faz minha pele se arrepiar. Visto o casaco fino que sempre deixo na bolsa. 

“Para o único lugar onde é possível encher a cara e ter alguma diversão decente nessa cidade após as dez da noite.” diz Peter.

Não preciso de mais explicações quando vejo as paredes coloridas no fim do porto. Assim que entramos no grande galpão em estilo industrial, a canção Can't Get Enough da banda Bad Company nos atinge como um soco. Há uma mesa de seis lugares no canto e nos direcionamos para ela. Algumas garotas caminham apressadas ao redor do salão levando bebidas e anotando pedidos, quase todas as mesas estão ocupadas. Coloco minha bolsa na cadeira de frente à minha e procuro Stein ou Cecília com o olhar. Não os vejo em lugar algum. Estou um pouco nervosa.

“Você já veio aqui antes?” grita Yaya em minha direção.

“Sim. Mas não venho desde que me mudei para Oslo. Os donos são amigos próximos dos meus pais.” 

“Então você é amiga do filho deles?” ela sorri com interesse. Sorrio de volta, mas sinto uma pontada de desconforto. Nunca pensei em Hans como alguém atraente sexualmente, muito menos alguém pelo qual minhas amigas pudessem se interessar. 

“Estudamos nas mesmas escolas desde a infancia, mas nao somos realmente amigos.”

“Você tem namorado, Liv?” questiona Leo. Não posso deixar de perceber o jeito carinhoso como ele segura a mão de Peter ao me fazer a pergunta.

“Sim” abro um sorriso enorme e comeco a falar sobre Bjørn. Conto como nos conhecemos, que estudamos juntos e que ele se mudará para Harstad assim que as novas mudanças na empresa da família estiverem consolidadas. Leo pede para ver fotos de Bjørn, mostro algumas fotos do meu rolo da câmera e conto algumas histórias sobre elas. 

“Wow! Ele é lindo! Parece um modelo da Giorgio Armani.”

Parece superficial, mas não posso negar. Ele é lindo e sinto muito a sua falta, principalmente agora, depois de olhar nossas fotos juntos e me recordar dos momentos. 

“Vou tirar uma foto nossa e enviar para ele”. Digo, entusiasmada.

Tiro uma selfie com os outros três ao fundo e envio para Bjørn com a mensagem:


“Todos já estão cansados de me ouvir falar sobre você.”


Recebo uma foto dele com os amigos, quase na mesma posição que estamos na minha foto. A diferença é que todos seguram uma pint de cerveja no alto. A mensagem diz:


“O mesmo aqui. <3”


Guardo o celular na bolsa e volto minha atenção para a garçonete que está em pé ao lado da mesa, mas dou de cara com Hans. Fico sem reação no primeiro instante.

“O… Oi! O que você está fazendo aqui?” gaguejo

Ele ri, como se eu tivesse feito uma pergunta idiota. 

“Liv, eu trabalho aqui a minha vida toda. Lembra?”

Eu realmente fiz uma pergunta idiota. Quero me enfiar debaixo da mesa. Os olhos de meus  amigos alternam entre nós dois.

“Estou me sentindo completamente idiota.” digo. Ele tenta esconder o sorriso. 

“Então… o que vocês querem para beber?”

“Nordlands IPA pra mim” diz Leo.

“O mesmo” responde Peter.

“Vodka” diz Yaya e todos nós dizemos “Wow” ao mesmo tempo. Ela apenas dá de ombros e sorri.

“E você?” Hans espera pacientemente até que me decido.

“Vodka”. Os outros três gritam “Wow” em coro.

Hans concorda com a cabeça e sai para buscar nossas bebidas. 

“Ele é muito lindo!” os três dizem ao mesmo tempo e todos caímos na gargalhada.

Bebemos, conversamos e nos divertimos até o horário em que o bar fecha. Provavelmente estaremos todos arrependidos da bebedeira amanha de manha. 

“Obrigada pela noite mais divertida desse ano” diz Leo, bêbado, me abraçando.

Após vinte minutos de muitos abraços e promessas de outra noite como esta, estou à caminho de casa. 


Pego minhas chaves na bolsa e as seguro firme entre os dedos, me sentindo muito esperta por me adiantar, mesmo que minha casa ainda esteja a duas ruas de distância. Fecho o casaco fino e cruzo os braços para ajudar a aquecer meu corpo, agradecendo a todos os deuses por não usar salto alto. Um gato atravessa a rua correndo e eu quase morro de susto. Minhas chaves voam para algum lugar. “Merda! Merda! MERDA!” esbravejo alto. 

Encontro a chave na calçada, do lado oposto da rua, após CINCO MINUTOS de busca minuciosa. Enfio as chaves na bolsa novamente, só pra garantir que elas estarão seguras e sigo a passos firmes para casa. 


Tomo banho e visto uma camiseta velha de Bjøn. Estou um pouco bêbada e cansada, porém, feliz. Coloco meus fones de ouvido e cantarolo Your shirt de Chelsea Culter. Sorrio pela sincronia do momento. Apago as luzes, pulo na cama e meus dedos embriagados começam a digitar


“Mas a cidade parece tão solitária quando você sai

 Meu quarto onde eu quero você

 Facilidade emaranhada em meus lençóis

 Na tua camisa que te tenho

 Meio adormecido, segurando em mim

 Minha cama onde você me deixou

 Emaranhado, agora é meio-dia ´(Ops! Meia-noite)` :P

 Na sua camisa que você me deu

 Meio adormecido, desejando ainda ter você

 Estou meio adormecido, desejando ainda ter você”


Caio no sono antes de ver a resposta dele na letra de I Want You de Kings of Leon.


“Te quero, exatamente como eu costumava.”


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Setembro - mês da consciência da dor

Maria

A Astrologa