Desenhando a Linha - Capítulo 6


Setembro. Como assim? Como isso aconteceu? O verão passou, as noites se tornaram mais longas e o clima já não é mais tão agradável. Os dias estão acelerados, a estação mudando diante dos nossos olhos. O verde do verão foi substituído pelas cores fortes do outono. Em menos de dois meses teremos neve. Coloco em minha lista “estocar lenha” como prioridade, então meus pensamentos assumem modo aleatório indo para meus pais, que estão de férias na Inglaterra, depois para meu aniversário, que será na próxima semana. 

“Seu pai tem comprado sapatos como se fosse uma centopéia.” 

A mensagem de mamãe apita em meu celular e não posso deixar de rir do emoji revirando os olhos no final do texto. Não respondo a mensagem, deixando para ligar para eles à noite. 

“Quer sair mais cedo e fazer uma caminhada antes que a luz do dia acabe e depois assistir algum filme lá em casa?” grito em direção a mesa de Yaya. Não saímos juntas há alguns dias, então provavelmente passaremos a noite falando sobre os tempos de escola, nossos amigos em comum e os caras com quem ela tem saído. Não é como se não passássemos tempo juntas o suficiente, porque passamos. Mas no trabalho não costumamos conversar sobre assuntos pessoais. 

“Vai ter vinho?” Ela grita de volta.

“Você leu meus pensamentos.” 

Depois de cinco minutos estamos caminhando pelo centro da cidade em direção ao mar e falando sobre alguns dos encontros de Yaya. 

“Na verdade, não... Argh, não sei…” diz ela, depois de pensar por alguns minutos.

“Deixe-me ver se entendi corretamente. Você enviou mensagem para ele após ele ter saído da sua casa…”

“Não foi qualquer mensagem”, ela me interrompe. “Ele chegou a minha casa às sete da noite e foi embora às onze, eu supus que ele tivesse se divertido, porque ele poderia ter ido embora muito antes disso. Então eu enviei uma mensagem desejando que ele chegasse seguro em casa. Você viu como estava o tempo ontem à noite?” ela nao espera que eu responda e continua “então eu enviei a mensagem. Esperei que ele me respondesse ao menos ´obrigado!`. Mas ele nao respondeu nada. Nadinha. Então hoje de manhã eu chequei e ele não tem resposta alguma.“

“Amiga, talvez ele esteja ocupado ou deixou para te responder após o trabalho.” explico. 

“Vou responder ´nenhum dos dois`. Não responder a uma mensagem da mulher com quem o cara passou a noite, significa apenas que ele não está interessado o suficiente.” 

Meu celular apita indicando que recebi uma mensagem. 

“Está ocupada?”

“Alguma coisa errada?” pergunta ela, me encarando enquanto caminha ao meu lado. 

“Não. Nada. Era Hans.”

“Nao sabia que ele tinha o seu número.”

“Deve ter conseguido com meus pais.”

“Nao entendo como vocês não são amigos próximos, já que a ambas as famílias são tão próximas e vocês se conhecem desde a infância.”

“Sempre fomos muito diferentes um do outro, mesmo sendo tão próximos.”

“Bem, pelo que você me contou da noite do jantar na casa da sua mãe, obviamente vocês tem alguma conexão. Há quem mataria para ter um amigo que entende sem precisar de muitas palavras.”

“Não consigo entender a razão, mas de certo modo aquela conversa me deixou incomodada, então achei melhor não falar com ele novamente. Não é confortável quando você sente que alguém pode enxergar dentro da sua mente. 

“Então, me conte sobre o que tem na mensagem.” Yaya se intromete.

“Curiosa” rio.

“Bem, ele parece simplesmente incrível. Você tem Bjørn e somos amigas, se vocês dois se tornam amigos, podemos sair todos juntos e quem sabe…”

“Espere, é só isso?” questiono, gargalhando.

“Cada um luta com as armas que tem” ela dá de ombros, sorrindo. “Não tente desviar o assunto. O que tem na mensagem?”

Antes que possa responder, alguém se aproxima e toca meu ombro. 

“Oh, meu Deus! Você quase me mata de susto” o sorriso debochado de Hans alcançando os olhos. 

“Olá, para você também” ele diz.

Hans faz um gesto de cabeça cumprimentando Yaya. Seu olhar repara com interesse nos meus cabelos despenteados. Percebo que seus olhos azuis estão brilhando de raiva, e seus lábios estão com alguns vestígios de batom.

“Parece que alguém está tendo um dia ruim.”

“Impressão sua” responde ele, com um sorriso irônico no rosto. 

“O que está fazendo aqui?”

“Caminhando”, faço um sinal em direção a praia. "Você estava nos espionando?” brinco.

“Você está me culpando exatamente de quê? Eu preciso te lembrar que trabalho logo ali” ele faz um sinal com a mão, indicando a direção “ e que não é difícil ver quem está caminhando.”

“Odeio ficar contra você, Liv, mas ele está certo.” Yaya responde. 

“Obrigado” ele sorri pra ela e bate com o ombro no meu.

“Quer dar uma volta por aí? Sei lá, só ir a algum lugar. Preciso esfriar a cabeça.” ele soa desconfortável. 

“Tenho compromis…”

“Pode ficar para amanhã, não tem problema.” Yaya me interrompe. “Você deveria ajudar o seu amigo. Amanhã a gente se vê.” 

“Você tem certeza?” confirmo.

“Claro! Nos vemos amanhã.” Ela me dá um abraço rápido, um abraço desajeitado em Hans e continua o caminho que estávamos fazendo. 

Assim que ela se afasta, pergunto:

“Problemas no paraíso chamado relacionamento?”

“Não me envolvo em relacionamentos. Foi só um imprevisto” ele sorri seu melhor sorriso cínico. O que me faz revirar os olhos.

“Tudo bem, homem que não se envolve em relacionamentos.” Implico. Ele abaixa a cabeça e sorri, deixando a tensão ir embora.

“Quer ir a algum lugar em específico? Talvez pudéssemos caminhar um pouco, ir até a praia.”

Ele espera a minha resposta.

“Sim ou não?” — Diz me olhando com um sorriso infantil no rosto.

“Vamos lá. Preciso fazer minha boa ação do dia.” respondo, começando a me mover. 

“Uma vida de mediocridade é uma perda de tempo” ele diz, seguindo ao meu lado. 

A água do mar está gelada, mesmo que o sol tenha brilhado o dia todo. São quase seis da tarde e a luz intensa do verão se transformou na escuridão que chega com o outono. Há um homem solitário à distância e um pequeno grupo de garotas com uma churrasqueira portátil fumegando a poucos metros.

“Então, como funciona esse negócio de não relacionamento? Não que você precise compartilhar.” Me apresso a dizer. Estamos sentados na areia, faço desenhos com a ponta dos dedos.

“Você cresceu e se tornou uma mulher forte.” O comentário me pega de surpresa. Vendo a surpresa estampada em meu rosto, ele emenda “Eu precisava dizer isso.”

“Estou tentando o meu melhor.” Digo.

“Tenho certeza de que está.”

“Então… sobre o não relacionamento?” Dou de ombros tentando parecer desinteressada.

Ambos tiramos os sapatos e a sensação da areia fria em meus pés me deixa relaxada. Hans parece pensativo por algum tempo, então me olha nos olhos e sorri.

“Nada que eu queira compartilhar, por enquanto.”

“Wow! Acho que mereci” Ele sorri um sorriso tímido. A verdade é que ele é cheio de sorrisos, de todos os tipos e intensidade.

“Não quero falar sobre isso. Na verdade, é algo sem importância. Quer andar um pouco?”

“Oh, sim. Tudo bem.”

Caminhamos em silêncio por uns cinco minutos, até que sua voz grossa quebra o silêncio. 

“Pretende ficar por quanto tempo?”

“Talvez… pra sempre? Estou trabalhando no escritório e não penso no futuro, ao menos por agora, isso ajuda a tornar minha readaptação mais fácil. E você? Não quis ir pra faculdade?”

“Não. Não é pra mim. Por enquanto o meu lugar é aqui. O clube, minha família, amigos e minha casa estão aqui. Eu não saberia como viver longe de tudo isso.”

“Você é jovem. A sua vida está apenas começando e o mundo está cheio de coisas que você ainda não viu. Talvez em pouco tempo decida ir para outro lugar.”

“Essa é a razão para você ter voltado para essa cidade minúscula e fria?” Tenho de sorrir, admitindo internamente que ele sabe mais sobre o mundo e sobre mim do que aparenta.

“Consigo te entender. Eu me sentia do mesmo jeito em Oslo. Só consegui entender depois de estar longe daqui por algum tempo. Algumas vezes me sentia deslocada. Ir para outro lugar não resolve todos os nossos problemas, porque a mente vai junto, não deixamos isso para trás como deixamos o endereço. Eu gosto da calmaria daqui, de ter as pessoas que eu conheço por perto. Então decidi voltar, ficar mais próxima dos meus pais.”

“Isso é bom. Fico feliz que tenha voltado.”

Fecho meus olhos e respiro profundamente. Caminhamos por mais algum tempo sem dizer nada. Ele mantém as mãos nos bolso e eu observo toda aquela roupa pesada.

Decido molhar os pés. Dobro a calça até os joelhos e absorvo a sensação das ondas indo e voltando enquanto tocam a minha pele. De repente sinto braços em torno da minha cintura e num piscar de olhos estou dentro do mar gelado. O choque do momento misturado ao choque térmico do meu corpo atingindo a água me faz afundar e não saber o que fazer. Quando me acalmo consigo encontrar a superfície e o encaro com um olhar ameaçador.

“Muito obrigada!” Grito. Fico com mais raiva quando o vejo sorrindo. Nado até a praia e pego minha bolsa na areia. “Pelo visto, continua o mesmo idiota do jardim de infância”. Estou furiosa, molhada e congelando.

“A conversa ficou séria demais. Te falei que eu precisava esfriar a cabeça.” O sorriso cínico ainda estampado no rosto. 

Tiro a camiseta molhada sem me importar se ele está olhando e me cubro com meu casaco. Estou tão furiosa que sinto vontade de afogá-lo. Ao erguer o olhar, noto que ele se aproximou e me encara. Ele despe a camiseta branca sem desviar o olhar do meu, em seguida, leva a mão ao botão da calça. Eu fico vermelha e me sinto ridícula por isso. A situação é ridícula. Mas de repente sinto uma inexplicável sensação de intimidade, como se tivéssemos um tipo raro de conexão que não precisa de palavras, como se fossemos amantes em um quarto e não dois quase amigos em uma praia pública, com pessoas em volta.

Uma onda de calor me invade. Sinto cada parte minha queimar e, por conhecer tão bem o meu corpo, sei que preciso me afastar dele. Com o olhar ainda fixo em mim, ele abre o zíper da calça para revelar uma boxer preta contrastando com a pele branca. A única reação que meu cérebro automaticamente consegue esboçar é a de correr novamente para o mar. É exatamente o que minhas pernas fazem, deixando Hans para trás.

Em poucos segundos sinto o efeito da água fria envolver meu corpo, continuo a nadar. Nado até mais além do que devia, contemplo o céu escuro e fico atenta ao barulho dos barcos que transitam. 

“Eu realmente não sei o que dizer agora.” alguns segundos se passam até ele recomeçar. “Não dá para ter um relacionamento. Sempre esperam de mim mais do que posso dar, e isso é complicado. Minha vida é complicada.” 

Ele está ao meu lado, mas não olho para ele, continuo a contemplar o céu. Quero ficar em silêncio e não falar com ele novamente. Quero nadar de volta para a praia e ir para casa aquecer o meu corpo. Entretanto, há uma espécie de inevitabilidade na aproximação.

“Humm. Entendo.” digo, por fim.

Ele parece um pouco impaciente e também sinto a irritação me dominar. Esse sentimento faz eu me sentir estúpida, assim, recomeço a nadar para longe dele. 

“É perigoso aqui. Há muitos barcos ao redor, não que você não tenha percebido. Você é inteligente demais para se colocar em perigo porque está frustrada. Vamos voltar à praia, não há nada que você precise me provar.”

Ele me acompanha com facilidade, resolvo parar e encará-lo. Mas nao consigo ler a expressão em seu semblante.

“Está enganado se pensa que preciso te provar alguma coisa ou se preciso de você para tomar conta de mim”.

“Se você diz…”

“Não me trate como criança, Hans!”

 

Num gesto rápido, Hans me prende em seus braços e me beija. Então afundamos, imergindo numa escuridão silenciosa, e tudo que eu sinto é o gosto salgado da boca dele e o meu coração batendo em descompasso. Por alguns instantes penso que vou me afogar. 

Ao voltarmos à tona, me afasto. Só percebo que estou respirando pesadamente quando ele toca meus cabelos.

“Calma” recomenda. “Precisará de todo fôlego e concentração para nadar de volta até a praia. está escuro e o mar é traiçoeiro”.

Sufocando a raiva, respiro profundamente e rumo para a praia com braçadas rápidas. Depois de algum tempo ele surge, pega suas roupas e se senta ao meu lado.

“Está brava comigo?”

“Que astuto! Deveria receber o prêmio Nobel por essa descoberta.”

“Oh, qual é? Ambos precisávamos disso. Vai discordar?”

“Você é um idiota. Não tem mais sete ou dez anos. Na nossa idade, isso já não é engraçado.” Respiro fundo, eliminando a frustração e sorrio. Bato com o ombro no dele. “Mas foi legal sim. Na época da escola costumávamos vir nadar todos os dias apos a aula. Era divertido.”

“Quer comer alguma coisa? Tem um lugar aqui perto que…” Meu celular toca antes que ele possa terminar a frase. Procuro o aparelho um pouco apressada, mesmo sem reconhecer o número, sei que é Bjørn.

“Preciso atender”. Me levanto e ando um pouco pela praia. Hans me observa de onde está. O vejo se vestir com movimentos despreocupados.

“Bjørn?”

“Oi amor, tudo bem com você? Te liguei mais cedo e você não atendeu. Fiquei preocupado.”

“Está tudo bem, eu estou bem. Só tive um dia cheio e depois vim caminhar na praia com Yaya e esqueci completamente do celular. Tudo bem com você? Vai conseguir vir no final de semana?”

“Claro que irei. Já fiquei tempo demais longe de você. Ocupada?”

“Nao realmente. Podemos conversar. Ainda estou na praia. Estou com saudade.”

Digo, mudando de assunto. Esconder algo de Bjørn é algo que nunca me passou pela cabeça, mas nesse instante, não me sinto confortável para contar-lhe sobre estar na praia com um quase desconhecido.

“Também estou com saudade, logo estarei com você.”

“Hey, Liv! Nao tenho a noite toda.” Hans grita em minha direção e meu coração quase para.

“Seus amigos ainda estão com você?”

“Hummm, sim. Preciso ir, te ligo assim que chegar em casa. Ok?”

“Estou ansioso para te ver. Te amo.”

“Tambem te amo. Te ligo mais tarde.”

Bjørn se despede prometendo vir assim que puder.

Hans me entrega minha bolsa. Todo o seu bom humor parece ter evaporado.

“É… humm… acho que é melhor eu caminhar de volta pra casa.

“Te acompanho.”

É toda a resposta que obtenho.


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas