Desenhando a Linha - Capítulo 7



Ligo para Bjørn assim que acordo, mas a ligação vai direto para a caixa de mensagem. Deixo um recado pedindo para que ele retorne assim que tiver um tempo livre e me arrasto para fora da cama. Aproveito a manhã tranqüila para revisar alguns processos e fingir que não percebo o interesse de Yaya sobre o que aconteceu ontem à noite, porém, ainda não estou preparada para falar sobre isso. Checo o celular novamente, zero mensagens de Bjørn. 

Caminho até a cozinha do escritório e tomo mais uma xícara de café. Me pego tamborilando nervosamente os dedos ao redor da xícara. “Por que estou fazendo isso?” questiono a mim mesma. Estou um pouco ansiosa. Posso sentir a pressão em meu estômago. Caminho de volta para minha sala decidida a concentrar a minha mente no trabalho. Abro o Spotify e escolho a musica 50 ways to leave your love de Paul Simon porque é uma daquelas canções leves que fazem você ficar animado, mesmo quando não quer.  

“Quer almoçar comigo ou já tem algum plano?”, pergunta a cabeça de papai entre o espaço mínimo da porta aberta.  

“Claro. Adoraria.” 

 


Enquanto caminhamos para o restaurante, conversamos sobre as férias de meus pais na Inglaterra e posso perceber pelo jeito divertido como ele descreve alguns momentos que a viagem foi mais interessante que mamãe me deixou saber. Papai parece ainda perdido em seu próprio mundo particular. Vamos ao Trondenes Historical Centre Cafe, o meu lugar favorito para ir quando eu era criança. Costumávamos almoçar aqui todos os domingos, vínhamos de manhã para caminhar e finalizamos o passeio no restaurante, observando o mar. Tudo continua igual, até os cheiros são os mesmos. O cheiro de peixe seco chega a superar o cheiro dos doces e das massas quando as refeições são servidas. Imagino que no fim da noite álcool será o cheiro predominante. Peço o de costume, pasta acompanha de vegetais e um cupcake de Red Velvet para a sobremesa. O pedido me faz ter um flashback de minha infância e um sorriso largo estampa o meu rosto.  

“O que é tão engraçado nesse lugar?” papai está curioso. 

“Boas lembranças. Costumávamos almoçar aqui todos os domingos quando eu era criança. Você se lembra do dia em que avistamos baleias? Aquele foi um dos dias mais incríveis de minha vida.”  

Ele sorri com a lembrança e diz “você estava tão eufórica por ver as baleias que sua mãe e eu ficamos com medo de você sair sorrateiramente para ir mais perto do mar. Você tinha o quê, seis, sete anos?” 

 “Sete. Foi a única vez que vi baleias.” digo, saudosa.  

“Você sempre foi muito apaixonada pelo mar, lia tudo sobre animais marinhos, e quando aprendeu a falar, sempre pedia para nadar. Antes de se interessar por vinil, você era aficionada por barcos e tudo que representasse a vida marítima. Foi uma surpresa a sua decisão de estudar direito.” 

“Foi uma surpresa para mim também, mas, para ser bem honesta, eu meio que esperava por isso. Você é uma inspiração para mim e eu sempre quis ser como você. Eu ainda amo o mar e não saberia viver longe de tudo isso”, faço um gesto com a mão indicando tudo ao meu redor. “Os discos de vinil estreitou nossa relação, estudar direito e voltar para Harstad era só uma questão de tempo” finalizo, segurando a mão dele.   

“Espero que em nenhum momento você tenha se sentido pressionada por mim ou sua mãe, ou tenha desistido de algo para estar aqui ou seguir meu caminho profissional.” 

“Jamais. Eu estou aqui porque quero estar, porque essa é a minha casa. Sou extremamente feliz fazendo o que faço.” 

A comida chega, interrompendo a nossa conversa. O cheiro está maravilhoso e me faz salivar. Estou faminta. 

“Bjørn vem para o final de semana?” papai pergunta, antes de dar uma mordida grande no sanduíche de salmão defumado.  

“Sim, acho que chegará lá pelas 21h30” digo, esfriando uma porção de vegetais. “Assim que a reunião dele terminar. Ele não respondeu às minhas mensagens de hoje, mas foi o que ele disse ontem à noite.” 

Papai balança a cabeça sorrindo. 

“Ele tem trabalhado duro para estar aqui com você. Aquele rapaz te ama, filha.” 

“Bjørn é a pessoa mais incrível que conheço. Sinto a falta dele todos os dias. Você acredita que ele já tem três propostas para criar filiais? Tem trabalhado tão duro nas ideias que tem e está colhendo as recompensas. Na semana passada eles tiveram uma reunião em Luxemburgo.” 

Seus olhos brilham de satisfação e orgulho. “Eu fico feliz por você estar feliz. Você merece isso.” 

Finalizamos nosso almoço ao som de Eyes are the size of the moon da banda irlandesa Walking on Cars, que flui quase inaudível dos alto falantes do restaurante.  

Passeando pela praia, rimos de nós mesmos e das lembranças, falamos sobre tudo, papai faz comentários engraçados sobre os lugares e percebo que muita coisa ainda é igual a quando eu era uma criança.  



 

Faltam duas horas para eu encerrar a semana de trabalho e já perdi as contas de quantas vezes chequei a tela do computador e do celular a espera de alguma mensagem de Bjørn. 

“Vou pedir autorização a sua chefe para que você possa sair mais cedo.” uma voz familiar, uma voz que imediatamente atribuo ao Bjørn, me tira do meu transe. Ele coloca a mochila no chão, examina a sala, e me dá uma piscadela de aprovação.  

“Temo que ela seja muito rigorosa e diga não.” me jogo nos braços dele quase derrubando nós dois. 

“Hei! Senti sua falta.” ele diz, antes de me beijar.  

Quando por fim nossas bocas se separam, digo: 

“Te enviei mensagem durante todo o dia e não obtive respostas. Já estava preocupada com você.” 

Ele me abraça apertado. 

“Desculpe. Eu não quis te preocupar. Tive várias reuniões e fui direto para o aeroporto, queria te fazer surpresa” ele sorri.  

“Conseguiu” beijo a ponta de seu nariz “mas não me deixe sem notícias novamente.” repreendo.  

“Então, como vai todo mundo?” pergunta Bjørn. 

“Muito bem” digo. Falo sobre o trabalho, o almoço com papai, e sobre os momentos de diversão que tenho com Yaya. “A empresa vai bem?” pergunto. 

“Vivemos dias exaustivos, entretanto, estou esperançoso com todas as ideias que temos e estamos colocando em prática. Se tudo caminhar como esperamos, me mudo ainda este ano.” 

“Sério?” Mais uma vez me jogo nos braços dele. Ele dá uma gargalhada alta. 

“Acho que isso significa que você ainda me quer por aqui.” 

“Todos os dias.” beijo-o profundamente.  

“Rosenborg vai jogar amanhã à noite aqui na cidade, pensei em convidar seu pai para irmos juntos. E é claro que você e sua mãe estão convidadas.” 

“Adoraremos” respondo, com um sorriso enorme.  

“Você parece exausto.” comento. 

Ele sorri e me puxa para um abraço.  

“Eu estou exausto. Sinto como se tivesse envelhecido vinte anos nessa última semana, posso ver rugas nas laterais do meu rosto e manchas pretas sob meus olhos.” Ele força um sorriso e beija o topo da minha cabeça. “Que cheirosa. Senti falta do seu cheiro.”  

Cada um de nós lança um sorriso mudo para o outro, então sugiro irmos para casa, pedir comida e relaxar.  


Alguém aparecesse com uma bandeja de bebidas e batatas frita, mãos apressadas pagam pelo que desejam, enquanto os olhos permanecem no campo. Alguns parecem satisfeitos com a oportunidade de ter algo em que possam descontar a ansiedade, enquanto outros reclamam com um gemido. No intervalo do jogo, quando a música The Fox (What Does The Fox Say?) começa a tocar, todo mundo grita alegremente e comemora até onde posso supor. 

Mamãe encontra Stein, Cecília e Hans e os convida para se juntarem a nós. Stein e Cecília perguntam sobre o trabalho de Bjørn e engajam em uma conversa descontraída. Até onde posso supor, todos parecem se divertir. Exceto por mim, e cada vez fica mais difícil disfarçar sobre como me sinto quando Hans está por perto. Talvez Bjørn ou meus pais percebam que algo está me incomodando, já que eles me conhecem tão bem.  

“Liv, você poderia me acompanhar ao banheiro?” Mamãe pergunta já me puxando pela mão. Pedimos desculpas para todas as pessoas sentadas e seguimos na direção dos banheiros. Quando entramos, ela me puxa para um local sem ninguém por perto. 

“O que está acontecendo entre você e Hans? E não me diga que nada está acontecendo, porque conheço vocês dois muito bem.” 

“Então viemos para o banheiro para falar sobre minha vida amorosa?” digo, num misto de espanto e diversão. Nunca escondi nada de meus pais, mas mesmo assim estremeço com a pergunta.  

“Podemos falar sobre isso outro dia, em outro lugar?” 

“Você é adulta e eu não tenho o direito de meter na sua vida, aliás, nunca fiz. Mas você é minha filha e eu não quero te ver sofrer, porque eu sei que você ama Bjørn do mesmo jeito que ele te ama e nós, seu pai e eu, também o amamos.” ela faz uma pausa e respira, frustrada. “Também conheço Hans desde que ele nasceu e o tenho como parte da família. Nenhum de vocês merece viver uma confusão que pode machucar um de vocês seriamente.” Olho para ela com carinho.  

“Tire esse olhar do rosto e responda à minha pergunta, ok?” 

“Não falo com Hans freqüentemente. O encontrei no jantar que você deu de boas vindas para mim e outro dia na praia, enquanto caminhava com Yaya.” sinto ela me observar com atenção. “Devíamos voltar”. 

Mamãe não se mexe. 

“Por que vocês ficam tão desconfortáveis na presença um do outro, se apenas se viram duas vezes?” Ela faz uma pausa. Eu espero, sabendo que tem mais coisas por vir. 

“Acho que ele gosta de você, Liv.” 

“Gosta?” pergunto, parecendo interessada demais. 

“E pelo que te conheço, ele não está sozinho nisso. Você ama Bjørn, isso é indiscutível, mas tem algum tipo de sentimento crescendo aí dentro.” 

Puxo mamãe mais para perto, incapaz de guardar aquilo comigo por mais tempo, tudo sai.  

“Não menti quanto a não falar com ele freqüentemente. Mas nos beijamos, quer dizer, ele me beijou, ontem à noite, enquanto eu caminhava com Yaya. Ele nos viu na praia, disse que precisava conversar e… não foi intencional, ao menos não de minha parte. Mas você está certa, existe alguma coisa... não sei explicar...  que faz com que seja desconfortável estarmos perto um do outro. Sinto como se ele me conhecesse muito bem. E isso é tudo. Prometo.” 

Ela não diz nada por décadas. 

“Apenas tome cuidado para não se machucar e machucar as pessoas que você ama. Você sabe resolver seus problemas sozinha, mas estou aqui caso queira compartilhar seus sentimentos.”  

Abro os braços sem precisar dizer palavras e ela se encaixa entre eles, quente e perfeita.  

“Você é uma ótima mãe, sabia?” 

“Você não sabe de nada.” ela responde.  




“É pedir demais que eles façam um golzinho sequer?” - pergunta Bjørn 

“Isso não vai acontecer, filho. Harstad tá jogando muito bem.” responde papai, sem tirar os olhos do campo.  

O jogo acaba com o time visitante perdendo de goleada para o time da cidade. 



 

Coloco um suéter e volto para a cozinha, onde Bjørn está servindo vinho em nossas taças. Ele exala através dos lábios apertados, olhos desafiadores enquanto encara a janela grande, tão concentrado que parece estar recordando algum momento difícil do passado.  

Minhas palavras quebram o silêncio,  

“Gosto de correr sozinha após o trabalho, voltar para casa e escolher um vinil para ouvir até tarde da noite.” 

Nos aconchegamos no sofá, o som da lareira crepitando, o vinho fresco tocando a minha língua, meu momento favorito de todos os dias.  

“Não acha um pouco entediante estar sozinha todas as noites?” 

“Não” rio. “Alguns dias Yaya me faz companhia, em outros apenas as nossas ligações. Eu nunca estou só, adormeço com a voz de algum deles.” Faço um gesto indicando os discos. “São nesses momentos que mais sinto falta de você.” 

Minhas palavras são recompensadas com movimentos lentos. Duas taças esquecidas sobre a mesa acompanham em sintonia a voz de Noah Gundersen e o álbum Lover. 

 


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