Desenhando a linha - Capítulo 1




Meus pés tocam o chão frio ao pular da cama e me enfio na roupa que tirei do armário na noite anterior. Coloco queijo numa fatia de pão ao mesmo tempo em que ajusto a velha Fjällräven preta em meus ombros. Pego meu casaco pendurado no cabideiro, enquanto meus olhos procuram pelo par de Adidas que sempre deixo ao lado da porta. Saio de casa ainda cedo, antes do sol raiar e colorir o céu azul. Fecho os olhos e tomo uma respiração profunda, agradecendo mentalmente pelo ar fresco da manhã. A passos largos desço os degraus em direção a rua. Três dos degraus sempre rangem alto, faço uma anotação mental para não esquecer de falar sobre isso com os novos moradores. “Todos seguros em suas camas” penso, observando a quietude da manhã. Sinto-me um pouquinho triste ao lembrar que essa será a minha última manhã refazendo esse caminho. Por vários meses me questionei se estou fazendo o certo, e mais uma vez deixo as lembranças abrirem espaço em minha mente com recordações de momentos felizes. Fazemos escolhas e não podemos nos criticar por isso. Coloco meus fones e meus dedos rolam pela tela do celular à procura de alguma música nova, mas velhos hábitos são difíceis de mudar e escolho a mesma playlist de todos os dias. 


“Bite your tongue

Don't make a scene dear

Everybody's been here

At least once before”


“Pertinente”, falo para mim mesma. Kings of Leon arranca um sorriso dos meus lábios enquanto sigo em direção ao centro de Oslo. 

 

Aker Brygge está cheio de vida. Pessoas desembarcando das balsas para iniciarem o dia de trabalho na cidade se misturam aos que acordaram cedo para aproveitar o dia de sol nas ilhas. Alguns barcos manobram para longe e seguem viagem para um dia cheio de diversão.

Sentirei a falta desses lugares especiais em Olso. Às vezes os sinto como uma pessoa atravessando espaços para me fazer companhia. Você provavelmente está se perguntando o que eu estou fazendo aqui. Eu estou observando. Saí de casa antes do nascer do sol para observar.

Uma noiva usando vestido branco sai do banco traseiro de um Mini. A fotógrafa diz entre sorrisos “Estou muito feliz por podermos aproveitar a luz da manhã”. Tiram uma foto em que o noivo de cabelos compridos, vestindo terno azul marinho, entrega o buquê para a noiva que ri como o gato da Alice. Provavelmente a fotógrafa já tenha visto antes aquela expressão. Eu sorrio também. Talvez aquela foto seja colocada numa moldura sobre a lareira e fique lá até que alguém a substitua por fotos de uma família maior. Penso em meus pais que estão juntos há trinta anos. Sinto a falta deles. Tento me convencer de que é por isso que estou me mudando de volta para casa, porque parece muito mais ousado do que o motivo verdadeiro, que é me sentir sozinha nessa cidade tão grande. “Cuidado para não cair, por favor. Atenção para não tropeçar. Obrigada.” fala a fotógrafa por cima da câmera. 

Meu celular apita com uma notificação de mensagem de Bjørn:

“Espero que não tenha comido o café da manhã sem mim. ;)”  


Sorrio, enquanto meus dedos apressados digitam a resposta:

“Te encontro no lugar de sempre?”  


A resposta vem segundos depois:

 “Por favor, guarde o meu lugar.”

 

É uma manhã de verão, todos querem aproveitar a luz do sol enquanto tomam seus cafés, preciso esperar alguns minutos até que alguma mesa esteja livre.  Então eu o vejo, seus cabelos castanhos despenteados como de costume, nariz proeminente, olhos azuis brilhantes que destacam ainda mais a cicatriz que ele tem abaixo do olho direito. Poucas vezes o vi sem barba. É impossível não notá-lo com sua pele morena e seus um e noventa e um de altura. Sinto o meu coração se apertar quando ele sorri e me abraça. “Sentirei sua falta” digo em minha mente e o abraço apertado. 


Acho que devo me apresentar, pois é aqui que essa história começa.

Me chamo Liv Foss, tenho vinte e cinco anos e um melhor amigo chamado Bjørn. Nos conhecemos um dia antes de iniciarmos nossas aulas na Universidade de Oslo, aqui neste mesmo café. Ambos aguardávamos na fila, o clima estava horrível do lado de fora. Ele falou algo sobre a chuva e eu concordei em resposta, então chegou a minha vez no atendimento, comprei meu café e saí. No dia seguinte, ele é a primeira pessoa que vejo assim que entro na sala de aula. Por vários dias apenas trocamos acenos de cabeça e palavras educadas, até que em outra manhã o encontrei na Baker Hansen e dessa vez, realmente conversamos. Ele disse que morava ali perto e que costumava comprar seu café ali todos os dias de manhã. Desde então compramos nosso café na mesma Baker Hansen e caminhamos juntos para a Universidade. Mas preciso acrescentar que em algum momento do nosso primeiro ano de universidade ele se tornou meu namorado. Quase três anos praticamente dividindo o mesmo apartamento, freqüentando a mesma sala de aula e lugares. Nos graduamos em direito no início do verão e eu estou voltando - sozinha - para a cidade onde nasci, Harstad. O plano é nos encontrarmos todos os finais de semanas, até que Bjørn possa se mudar definitivamente. A família de Bjørn é dona de uma empresa no mercado editorial, é lá que ele trabalha e, também, a razão para ele ter entrado para o curso de direito.

Quanto a mim, você deve estar se perguntando o que eu faço. Eu estou desempregada. Esse é o meu status profissional. Não que eu tenha esse status há muito tempo, mas será o meu status profissional até a próxima semana. Recebi uma proposta profissional em Harstad. Mais que isso, é uma proposta para me tornar sócia do escritório de advocacia Hansen & Foss. O nome não é uma coincidência, meu pai é advogado e junto com o melhor amigo dele, Mørten Hansen, abriu o escritório no ano em que nasci. 

Eu amo Oslo, a cidade é incrível e é aqui que Bjørn nasceu e morou por toda a vida, mas gosto da quietude das cidades pequenas e de estar mais próxima das montanhas. Me sinto deslocada aqui. Quando papai e Mørten me ofereceram sociedade, pensei em recusar e então conversei com Bjørn. “Que oportunidade incrível, Liv! Você não pode recusar!”. Essa é a história. A propósito, me mudo hoje à noite. 

 

Antes de sair, dirijo um aceno impessoal com a cabeça para os novos moradores que vieram buscar as chaves. “Você está bem?” Ouvir a voz de Bjørn é agradável.  Olho novamente para o relógio. Já são dez e vinte da manhã e o nosso vôo sai às doze. Precisamos nos mover, não quero estar atrasada. Pela última vez antes de partir, esquadrinho a vizinhança na qual vivi por pouco mais de três anos. Prédios coloridos, o parque e sua variação de tons de verde do outro lado da rua, as crianças brincando, adultos se bronzeando e cachorros correndo a procura de diversão. Sorrio “Sim. Estou bem.”

 

O avião balança um pouco quando decola na pista, rumando para o norte. Mesmo estando próximo das nuvens, consigo ver as árvores lá embaixo, um mar de cores e ar fresco. Nuvens brancas pontilham o horizonte e sinto vontade de tocá-las. Algumas parecem algodão doce e outras uma bola de sorvete sobre o cone, à espera de alguém para lambê-la. O céu é tão azul que mais parece uma foto daqueles anúncios de férias na praia. Mesmo vivendo a minha vida toda nesse país, ainda dou valor e aprecio tudo ao meu redor. A natureza cria uma atmosfera que relaxa o corpo e faz os problemas desaparecerem. Olho ao redor, observando as pessoas sentadas em bancos acolchoados, contemplando o céu através das janelas. Suas expressões me faz duvidar de que algum deles esteja se lembrando das preocupações deixadas em casa. Meu pensamento vai longe, imaginando como é a vida de cada um. O senhor na segunda fileira parece mais interessado em seu livro que no céu tão próximo. Uma criança conversa em algum lugar ao fundo. Mudo o curso dos meus pensamentos para a minha nova casa. Ela é pequena, mas grande o suficiente para duas pessoas viverem tranquilamente e o jardim é a minha coisa favorita sobre ela. Bjørn beija meu rosto, me fazendo voltar para o avião. Sua mão segura a minha enquanto sua cabeça pousa lentamente sobre meu ombro direito. Não consigo dormir em aviões, mesmo que o trajeto seja longo. Coloco meus fones usando apenas a mão livre e continuo a olhar pela janela enquanto James Bay canta Us em meus ouvidos.



 


Comentários

  1. Adorei, quero ler o próximo capítulo, quando sai? 😍
    Eu que pretendo viver na noruega, me fez sentir que conheço melhor os lugares e o comportamento das pessoas, por causa da descrição. Muito bom!

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    1. Obrigada por ler! Isso significa muito pra mim. :)
      Uma das coisas que mais gosto na leitura é a riqueza de detalhes que nos transporta pra outros lugares e é assim que gosto de escrever.

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  2. Suuuper amei! Curiosa demais pro capítulo 2

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    1. Tu é minha inspiração. Te amo! Obrigada por tudo e por tanto.

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  3. Amei!! texto que prende a atenção do início ao fim, já no aguardo para os próximos capítulos!❤️

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