Desenhando a linha - Capítulo 1



Meus pés tocam o chão frio ao pular da cama e me enfio na roupa que tirei do armário na noite anterior. Coloco queijo numa fatia de pão ao mesmo tempo em que ajusto a velha Fjällräven preta em meus ombros. Pego meu casaco pendurado no cabideiro, ao mesmo tempo em que meus olhos procuram pelo par de Adidas que sempre deixo ao lado da porta. Saio de casa ainda cedo, antes do sol raiar e colorir o céu azul. Fecho os olhos e tomo uma respiração profunda, agradecendo mentalmente pelo ar fresco da manhã. A passos largos desço os degraus em direção a rua. Três dos degraus sempre rangem alto, faço uma anotação mental para não esquecer de falar sobre isso com os novos moradores. “Todos seguros em suas camas” penso, observando a quietude da manhã. Sinto-me triste ao lembrar que essa será a minha última manhã percorrendo esse caminho. Por vários meses me questionei se estou fazendo a coisa certa, e mais uma vez deixo as lembranças abrirem espaço em minha mente com recordações de momentos felizes. Fazemos escolhas e não podemos nos criticar por isso. Coloco meus fones e meus dedos rolam pela tela do celular à procura de alguma música nova, mas velhos hábitos são difíceis de mudar e escolho a playlist de todos os dias. 


“Bite your tongue

Don't make a scene dear

Everybody's been here

At least once before”


“Pertinente”, falo para mim mesma. Kings of Leon arranca um sorriso dos meus lábios enquanto sigo em direção ao centro de Londres. 

 

Piccadilly Circus está cheia de vida. Pessoas desembarcando dos ônibus para iniciarem o dia de trabalho na cidade se misturam aos que acordaram cedo para aproveitar o dia de sol passeando e fazendo compras. Alguns taxis manobram para longe e seguem viagem para um dia cheio com passageiros apressados.

Sentirei a falta desses lugares especiais em Londres. Às vezes os sinto como uma pessoa atravessando espaços para me fazer companhia. Você provavelmente está se perguntando o que eu estou fazendo aqui. Eu estou observando. Saí de casa antes do nascer do sol para observar.

Uma noiva usando vestido branco sai do banco traseiro de um táxi preto. A fotógrafa diz entre sorrisos “Estou muito feliz por podermos aproveitar a luz da manhã”. Tiram uma foto em que o noivo de cabelos compridos, um pouco alto demais para seu terno azul marinho, entrega o buquê para a noiva que ri como o gato da Alice. Estou certa de que a fotógrafa já viu aquela expressão centenas de vezes. Eu sorrio também. Talvez aquela foto seja colocada numa moldura sobre a lareira e fique lá até que alguém a substitua por fotos de uma família maior. Penso em meus pais que estão juntos há trinta anos. Sinto a falta deles. Tento me convencer de que é por isso que estou me mudando de volta para casa, porque parece muito mais ousado do que o motivo verdadeiro, me sinto solitária nessa cidade tão grande. “Cuidado para não cair, por favor. Atenção para não tropeçar. Obrigada.” fala a fotógrafa por cima da câmera. 

Meu celular apita com uma notificação de mensagem de David:

“Espero que não tenha comido o café da manhã sem mim. 😉”  


Sorrio, enquanto meus dedos apressados digitam a resposta:

“Te encontro no lugar de sempre?”  


A resposta vem segundos depois:

 “Por favor, guarde o meu lugar.”

 

Em uma manhã de verão todos querem aproveitar a luz do sol enquanto tomam seus cafés, preciso esperar alguns minutos até que alguma mesa esteja livre.  Então eu o vejo, seus cabelos castanhos despenteados como de costume, nariz proeminente, olhos azuis brilhantes que destacam ainda mais a cicatriz que ele tem abaixo do olho direito. Poucas vezes o vi com barba. É impossível não notá-lo com sua pele morena e seus um e noventa e um de altura. Sinto o meu coração se apertar quando ele sorri e me abraça. “Sentirei sua falta” digo em minha mente e o abraço apertado. 


Acho que devo me apresentar, pois é aqui que essa história começa.

Me chamo Jane Foss, tenho vinte e cinco anos e um melhor amigo chamado David. Nos conhecemos um dia antes de eu iniciar minhas aulas na Universidade de Londres, aqui neste mesmo café. Ambos aguardávamos na fila, o clima estava horrível do lado de fora. Ele falou algo sobre a chuva e eu concordei em resposta, então chegou a minha vez no atendimento, comprei meu café e saí. No dia seguinte, ele é a primeira pessoa que vejo assim que me aproximo do caixa para pedir o meu Latte sem acucar. Por vários dias apenas trocamos acenos de cabeça e palavras educadas, até que em outra manhã o encontrei na fila da Marks & Spencer e dessa vez, realmente conversamos. Ele disse que morava ali perto e costumava comprar seu café na Starbucks todos os dias de manhã. Mas preciso acrescentar que em algum momento daquele mesmo ano, ele se tornou meu namorado.

Quase três anos praticamente dividindo o mesmo apartamento e frequentando os mesmos lugares. Me graduei em direito no início do verão e eu estou voltando - sozinha - para a cidade onde nasci, Carolina Beach, Carolina do Norte, Estados Unidos. Eu sei. Também estou em pânico. Estou me mudando para outro continente e vou manter um relacionamento à distancia. O plano é nos encontrarmos por alguns dias ao menos uma vez por mês, até que David possa se mudar definitivamente. Nao parece muito promissor se você nao souber o contexto, mas vou explicar. David é um modelo internacional. Eu posso ouvir todos vocês dizendo em espanto "Mentira!". Mas é verdade. David é aquele modelo nos comerciais do perfume Blue Light da Dolce & Gabbana e também o rosto que estampa os outdoors da Marks & Spencer. Foi um choque para mim também, acredite. Por conta do trabalho ele nao pode se mudar imediatamente, entao teremos de nos adequar. Por enquanto.


Quanto a mim... você deve estar se perguntando o que eu faço. Eu estou desempregada. Esse é o meu status profissional. Não que eu tenha esse status há muito tempo, mas será o meu status profissional até a próxima semana. Recebi uma proposta profissional em Carolina Beach. Mais que isso! É uma proposta para me tornar sócia do escritório de advocacia Hansen & Foss. O nome não é uma coincidência, meu pai é advogado e junto com o melhor amigo dele, Taylor Hansen, abriu o escritório no ano em que nasci. 

Eu amo Londres, a cidade é incrível e é aqui que David nasceu e morou por toda a vida, mas gosto da quietude das cidades pequenas e o clima em Carolina Beach é mais atraente. Me sinto deslocada aqui. Quando papai e Taylor me ofereceram sociedade, pensei em recusar e então conversei com David. “Que oportunidade incrível, Jane! Você não pode recusar!”.

Essa é a história. À propósito, me mudo hoje à noite. 

 





Antes de sair, dirijo um aceno impessoal com a cabeça para os novos moradores que vieram buscar as chaves. “Você está bem?” Ouvir a voz de David é agradável.  Olho novamente para o relógio. Já são seis e vinte da tarde e o nosso vôo sai às nove. David viajará comigo, amenizando o sentimento de partida. Precisamos nos mover, para nao nos atrasar. Pela última vez antes de partir, esquadrinho a vizinhança na qual vivi por pouco mais de três anos. Prédios em tons terrosos, o parque e suas variacoes de tons de verde do outro lado da rua, as crianças brincando, adultos se bronzeando e cachorros correndo a procura de suas bolas. Sorrio “Sim. Estou bem.”

 

O avião balança um pouco quando decola na pista, rumando para o sul. Mesmo estando próximo das nuvens, consigo ver as árvores lá embaixo, um mar de cores e ar fresco. Nuvens brancas pontilham o horizonte e sinto vontade de tocá-las. Algumas parecem algodão doce e outras bolas de sorvete sobre o cones, à espera de alguém para lambê-las. O céu é tão azul que mais parece uma foto daqueles anúncios de férias em alguma praia paradisíaca. Mesmo vivendo por três anos na Inglaterra, ainda dou valor e aprecio cada momento aqui, mesmo que do alto. A natureza cria uma atmosfera que relaxa o corpo e faz os problemas desaparecerem.

Olho ao redor, observando as pessoas sentadas em bancos acolchoados, contemplando o céu através das janelas. Suas expressões me fazendo duvidar de que qualquer uma delas esteja se lembrando das preocupações deixadas em casa. Meu pensamento vai longe, imaginando como é a vida de cada uma. O senhor na segunda fileira parece mais interessado em seu livro do que no céu tão próximo. Uma criança conversa em algum lugar ao fundo. Mudo o curso dos meus pensamentos para a minha nova casa. Ela é pequena, mas grande o suficiente para duas pessoas viverem tranquilamente e o jardim é a minha coisa favorita sobre ela. David beija meu rosto, me fazendo voltar para o avião. Sua mão segura a minha enquanto sua cabeça pousa lentamente sobre meu ombro direito. Não consigo dormir em aviões, mesmo que o trajeto seja longo. Coloco meus fones usando apenas a mão livre e continuo a olhar pela janela enquanto James Bay canta Us em meus ouvidos.



 


Comentários

  1. Adorei, quero ler o próximo capítulo, quando sai? 😍
    Eu que pretendo viver na noruega, me fez sentir que conheço melhor os lugares e o comportamento das pessoas, por causa da descrição. Muito bom!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por ler! Isso significa muito pra mim. :)
      Uma das coisas que mais gosto na leitura é a riqueza de detalhes que nos transporta pra outros lugares e é assim que gosto de escrever.

      Excluir
  2. Suuuper amei! Curiosa demais pro capítulo 2

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tu é minha inspiração. Te amo! Obrigada por tudo e por tanto.

      Excluir
  3. Amei!! texto que prende a atenção do início ao fim, já no aguardo para os próximos capítulos!❤️

    ResponderExcluir
  4. Oi querida! Adorei e tô doida pra saber o que vai acontecer nessa nova fase dela. O jeito como você descreve os cenários e as sensações é muito bonito, parece pinceladas de um quadro. Siga em frente e arrasa, sem medo!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Deixe Ir

Encontro de almas?

Vá Dançar à Luz da Lua