O que você quer ser quando crescer?

Quando eu tinha 5 anos queria ser astronauta. Eu sei, isso não é tão original. Mas eu queria ser astronauta e viajar para Plutão. Tinha por hábito observar as estrelas durante a noite e brincar de encontrar formas nas nuvens durante o dia. Eu poderia viver uma vida inteira ali, deitada na grama, braços cruzados sob a cabeça, olhos atentos àquela imensidão, tentando descobrir o que havia por trás de todo aquele azul.  

Não fale com estranhos. Minha mãe costumava dizer. 


Alguém diz meu nome, me pergunta se eu quero ir a um lugar legal. Todas as crianças querem ir a um lugar legal. Afinal, eu não estava falando com estranhos. 

 

Eu consigo me lembrar do cheiro, da sensação na pele, do ar tocando o meu rosto enquanto as palavras saíam quentes. Vejo meus próprios olhos como espectadora de mim mesma. Aquele lugar não era legal, mas eu estive lá algumas vezes. Sem conhecimento para entender, me calei. Eu tinha um segredo, mas eu não tinha mais uma parte de mim mesma. 

 

O que você quer ser quando crescer? 

 

Porque, de repente, Plutão não é mais um planeta e eu não sou mais a mesma criança. E eu gosto de livros. Eu gosto de livros. Eu não tenho amigos. Eu não falo com estranhos, eu sou estranha agora. Eu gosto de desenhar, mas os meus desenhos não podem ser anexados na parede. Eu não gosto mais de falar. Eu tenho um segredo. 

 

Eu falo com um estranho, seu nome é Robinson Crusoe. Eu me pareço com ele. Nós compartilhamos conversas solitárias e o mesmo desejo de encontrar um lugar para chamar de lar. Eu falo com Robinson todos os dias, ele gosta de barcos, eu gosto de livros, mas eu ainda gosto de planetas. Nós somos amigos. Posso dizer a ele que tenho pesadelos.

 

O que você quer ser quando crescer? 

 

Porque, de repente, Plutão não é mais um planeta e eu sou adolescente. E eu gosto de livros. Eu gosto de livros. Mas eu ainda gosto de planetas. Eu não tenho amigos. Eu não falo com estranhos, eu ainda sou estranha. Eu não gosto mais de desenhar, porque os meus desenhos não podem ser anexados na parede. Eu não gosto de falar, ninguém quer ouvir a minha voz, mas eu gosto de escrever. Eu tenho outro segredo. E, mais uma vez, eu não falei com nenhum estranho. 

 

Ainda sinto o cheiro do vinho no meu rosto, mas eu não me lembro de tudo. Eu me lembro da dor. Eu me lembro das promessas de que não me machucariam. Mas estavam me machucando. Eu ainda me lembro de pedir para que parassem. Eu me lembro da dor. 

 

Eu tenho um caderno cheio de segredos, duas pessoas a menos para confiar e vários amigos na estante. Eu gosto de escrever. Eu tenho pesadelos.

 

O que você quer ser quando crescer?

 

Porque, de repente, Plutão não é mais um planeta e eu sou uma mulher. E eu gosto de livros. Eu gosto de livros. Mas eu ainda gosto de planetas. Eu não tenho amigos. Hoje eu falei com um estranho, eu continuo sendo estranha. Eu não gosto mais de desenhar, porque os meus desenhos não podem ser anexados na parede. Eu não gosto de falar, mas eu gosto de escrever. Eu tenho os mesmos segredos. O estranho diz que me ama, mas ele não lê o que eu escrevo. Na mesma cama que dividimos por muitos anos, ele se nega a aceitar o meu não. Vendo o meu desespero, ele sorri e diz que foi apenas uma brincadeira. Ele diz que eu sou estranha. Ele não gosta dos meus amigos na estante.

 

Eu não tenho mais um caderno cheio de segredos, mas eu tenho um caderno novo. Eu não consigo dormir. Ele não percebe isso. Quando consigo dormir, tenho pesadelos. 

 

O que você quer ser quando crescer? 

 

Porque, de repente, Plutão não é mais um planeta e eu sou uma mulher. E eu gosto de livros. Eu gosto de livros. Mas eu ainda gosto de planetas. Eu tenho poucos amigos. Hoje comecei a falar com outro estranho. Ele me observa à distância. Com ele eu me sinto uma mulher normal. Eu não gosto mais de desenhar, porque os meus desenhos não podem ser anexados na parede. Com ele eu gosto de falar, eu gosto de escrever. Eu começo a compartilhar meus segredos. O estranho lê o que eu escrevo. Ele não diz que eu sou estranha. Eu penso que ele sabe muito sobre mim. Que sentimento estranho! Nós nos conhecemos hoje. Ele gosta dos meus amigos na estante. Eu me sinto livre. Ele se torna o meu novo segredo. 

 

Eu não tenho mais um caderno cheio de segredos, mas eu tenho um caderno novo. Eu não consigo dormir. Eu gosto de falar com um estranho. Ele me faz companhia para que eu possa dormir. Quando consigo dormir, eu tenho pesadelos. 

 

O que você quer ser quando crescer? 

 

Porque, de repente, Plutão não é mais um planeta e eu sou uma mulher, eu continuo a falar com estranhos. E eu gosto de livros. Eu gosto de livros. Mas eu ainda gosto de planetas. Eu tenho alguns amigos. Eu sou uma mulher normal. Eu não gosto mais de desenhar, porque os meus desenhos nunca puderam ser anexados na parede. Eu gosto de falar e gosto de escrever. Eu não tenho mais segredos, exceto por aquele estranho. Eu sou quem eu queria ser quando crescesse. O estranho lê o que eu escrevo. Ele diz que me ama. Ele gosta dos meus amigos na estante. Eu me sinto livre. Eu me sinto em casa. Mas eu ainda tenho esse segredo.

 

Eu não tenho mais um caderno cheio de segredos, mas eu tenho um caderno novo. Eu não consigo dormir. Mas quando estou com ele eu posso dormir por algumas horas. Quando consigo dormir, eu tenho pesadelos. Mas eu não estou só, seus braços me acalentam e sua voz promete segurança e liberdade para eu colocar tudo para fora. 

 

O que você quer ser quando crescer? 

 

Porque, de repente, Plutão deixou de ser um planeta e eu não sou mais uma criança, mas eu continuo a falar com o mesmo estranho. E eu gosto de livros. Eu gosto de livros. Mas eu ainda gosto de planetas. Eu tenho alguns amigos. Eu sou uma mulher normal. Eu não gosto mais de desenhar, porque os meus desenhos nunca puderam ser anexados na parede. Eu gosto de falar e gosto de escrever. Eu não tenho mais aqueles velhos segredos. Eu sou o que eu queria ser quando crescesse. O estranho lê o que eu escrevo. Ele não diz nada. Ele nunca faz. Ele gosta dos meus amigos na estante. Eu me sinto livre. Eu continuo escrevendo e confiando a ele toda a angústia do meu ser. Mas ele ainda é meu segredo. 

 

Eu não tenho mais um caderno cheio de segredos, mas eu tenho um caderno novo. Eu não consigo dormir. Quando consigo dormir, eu tenho pesadelos. Às vezes, não consigo respirar. Eu sinto falta de mim mesma. 

 

O que você quer ser quando crescer?

 

Tiro as minhas roupas por vontade própria e me visto em palavras. Embora eles tentem calar a minha voz, não irão me convencer, muito pelo contrário. A única coisa que ainda sei é que confiar e seguir em frente exige coragem, mas a vida é essa mistura de arte e caos e eu estou completamente apaixonada. Antes de obter a cura, a ferida precisa ser exposta. Não importa o quanto isso doa, o processo de cura faz cada segundo de dor valer a pena. Estou me levantando do chão, direcionando a culpa a quem ela precisa ser direcionada. Se eu obter cicatrizes, tudo bem. Cicatrizes não doem. Eu gosto de cicatrizes. Elas contam histórias.

Nada pode bater tão forte quanto meu grito. 








Comentários

  1. "Se eu obter cicatrizes, tudo bem. Cicatrizes não doem. Eu gosto de cicatrizes. Elas contam histórias." Tento carregar isso pra vida e pensar assim meu motivo pra enfrentar a maioria das dores que vivo (outras ainda assustam e eu fujo delas, mas eu também me perdôo por isso)!

    Obrigada pelo texto!

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    1. Temos de nos perdoar, Anna. Não dá pra equilibrar todos os pratos de uma vez, a gente concerta de um lado e acaba estragando um pouco do outro. O que importa é ter ciência disso.

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  2. Se aceitar e se empoderar. Como eu me encontro nas tuas palavras. <3

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    1. somos donos do curso de nossas próprias vidas, podemos escolher sangrar todos os dias ou limpar a ferida para que ela cicatrize mais rápido.

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  3. Bem poético o texto. Parabéns.

    Bom fim de semana!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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