A procuradora

Se você fosse uma pessoa famosa, quem você seria? 

Eu tô muito apaixonada pelo novo álbum da Miley Cyrus. As canções de Plastic Hearts são como escritas por mim, é como se fosse eu falando sobre tudo que existe em minha mente. 

A minha música favorita do album se chama High.


Desde criança me atraí por personagens que chamo carinhosamente de “disfuncionais”. Nunca tive predileção pelo príncipe, o meu fraco era a Fera. Também nunca me enxerguei princesa, porque me vejo no Shrek.


Na literatura, minhas personagens favoritas são o órfão vingativo Heathcliff do clássico O morro dos ventos uivantes, o perdido e abusivo Hardin de After, o desconfiado e bissexual Vishous de Irmandade da Adaga Negra. Nas séries de TV, tenho predileção pelo sonhador e ingênuo Jax Teller de Sons of Anarchy, que toma decisões erradas tentando acertar e o serial killer Paul Spector de The fall, que me assusta muito, principalmente por eu não conseguir odiá-lo ou não me apaixonar pela escuridão dele. 

Me apaixonar por uma personagem tão obscura me transforma em que tipo de pessoa? Honestamente, tenho medo de descobrir e entender porque me sinto tão parecida com eles. São personagens, ficção, mas ao mesmo tempo, tão parecidos comigo que posso me ver nos olhos deles. Então eu sinto a dor de cada um, os medos, as angústias. É tão fácil me reconhecer no que está quebrado, no que não é perfeito. 


E verdade seja dita, Vishous é o meu eu literário. Os mesmos questionamentos, a mesma forma de sentir perante a sociedade e as pessoas ao redor, a mesma dificuldade de aceitação física, abusos sexuais moldando vontades sexuais, a necessidade da dor para fazer sentir, mesmos medos em relação ao amor e acrescentamos a isso a questão da sexualidade. 


E o que Miley Cyrus tem a ver com isso? Você já deve suspeitar. 

Eu me vejo nela. 


Ontem a noite enviei despretensiosamente um trecho da música Never Be Me do novo album de Miley para uma de minhas amigas mais íntimas, Lucila.

 

Estou ao seu lado, pelo menos por um tempo

Eu sei que faço isso toda vez

Eu ando na linha, sim, eu brinco com fogo

Eu não quero te pressionar muito

Eu não quero me inclinar muito longe

Eu não quero aprender da maneira mais difícil, não

Eu não quero mantê-lo no escuro

Não quero jogar com o seu coração

Eu não quero nunca te deixar sozinho

Mas se você está procurando estável, nunca serei eu

Se você está procurando por fiéis, nunca serei eu

Se você está procurando alguém para ser tudo que você precisa

Isso nunca serei eu

(Por mais que tente)

Isso nunca serei eu

(Eu brinco com fogo)


Lu me respondeu: Hahaha brincar com fogo é sua especialidade


Então iniciamos uma conversa profunda. Nossas conversas são sempre assim, cheias de questionamentos, auto análise e reflexões intensas. 


O diálogo se desenrolou nas reflexões a seguir; 


Eu: E nem é só nesse sentido. É tão complexo e profundo isso, essa sensação de não pertencer a ninguém, de estar perdida em mim mesma, ao mesmo tempo que tenho certeza de tudo, já mudei de ideia e não tenho certeza de mais nada e quero tudo diferente. 

Não sei, é assunto pra terapia também. Mas tem algo em mim que nunca fica quieto. Eu amo, eu faço tudo que eu posso, mas parece que nunca é suficiente para aquietar isso em mim, não importa quão forte eu tente. 

Pessoas como eu têm tendência a vícios, somos inquietos, “perdidos”, e mesmo que meus vícios não sejam álcool e drogas, eles também são destrutivos. Isso é bem complexo na verdade. 


Vejo muitas pessoas dizendo que Miley faz isso porque quer chamar atenção, mas eu duvido muito que seja. Vejo muito de mim nela e por experiência própria, sei que não queremos ou gostamos de ser assim, a louca do rolê, mas essa selvageria tá lá. Expressada principalmente sexualmente. E não sabemos o que fazer com isso, então a gente se aquieta em algum lugar, mas não dura, porque também sentimos essa satisfação deturpada no errar, no arriscar, no nos perder em qualquer coisa.


Lu: Sempre percebi você agitada. O que aconteceria se você ficasse quieta?


Eu: Eu não me reconheceria mais.


Lu: Ou talvez você reconheceria uma Leidiane que você não gosta de ver.


Eu: Não sei se gosto ou não, porque nunca vi.


Lu: Você se sente fugindo de algo?


Eu: Não. Procurando algo.

Não fugindo. Mas procurando por essa quietude que nunca tive. 

A minha memória mais intensa de mim mesma é de quando eu tinha uns 3 anos, morava na fazenda, não tínhamos eletricidade ou esses confortos da vida moderna. E a memória não é de um acontecimento, é de um sentimento, sentimento de não pertencer a mim mesma. 

Eu sou uma procuradora. 

Eu sempre quis ir embora de todos os lugares para procurar por algo que falta em mim.

Eu sempre me envolvi com muitas pessoas ao mesmo tempo. Eu sempre quero tudo ao mesmo tempo.


Há uma pessoa que me permite ser essa confusão sem me pedir explicações, mudanças ou fidelidade. Eu simplesmente sou. Sem ela, sinto que preciso me esforçar pra lembrar quem eu sou. Pra ela, com quem estou ou quem eu sou não muda as coisas, porque isso sou eu. A minha confusão não muda as coisas. Não importa se quero fazer sexo com outra mulher ou um homem. Essa pessoa apenas está lá, aceitando a minha confiança e confiando em mim também, eu não preciso ser perfeita, fiel e dizer as palavras certas.


Lu: Isso é pesado.


Eu: Sim. 

Por algum tempo a quietude funciona. Entretanto, em algum ponto isso já não funciona mais e eu começo a interpretar o meu papel novamente, mas sou uma péssima atriz. E eu digo para mim mesma que eu preciso fazer diferente e continuar quieta, sem errar. E assim eu vou seguindo.


Lu: Isso é muito louco. O que te impede de ser livre em outras situações que não envolvam essa pessoa? As convenções sociais? A balança do certo ou errado?


Eu: A balança do certo ou errado, mas de acordo com meus próprios critérios, das minhas crenças e caráter.

Porque eu sei que as coisas estão erradas, e mesmo assim eu faço. 

Experimentar essa liberdade falsa é perigoso. 

É assim que nos tornamos dependentes em qualquer sentido, coisa ou pessoa. 


Lu: Talvez tudo o que você passou na infância e adolescência moldou em você essa visão de falsa liberdade. Porque no final das contas a gente é a soma de tudo o que a gente viveu. Você precisa muito cuidar disso na terapia, porque isso pode te  prejudicar de alguma forma na hora de fazer escolhas


Eu: Nem é talvez, Lu. É a verdade. Tudo que aconteceu comigo ao longo dos anos moldou quem eu sou e é influência nas minhas decisões. 

É tão difícil separar as razões pelas quais mantemos as pessoas em nossas vidas, depositamos tempo demais em alguns sentimentos e pessoas por não sabermos quem seremos sem eles. Tenho medo de descobrir quem eu sou sem essa inquietude. Será que sou a Leidiane doce que espreita atrás dessas paredes de isopor que construí para me proteger? Será que sou a Leidiane que se joga, experimenta e vive sem pensar no amanhã e nas consequências? Será que sou a Leidiane que quer uma vida tranquila ao lado de uma pessoa só ou sou a Leidiane que quer experimentar todas as pessoas? Ou será que sou todas elas e nasci para ser inquieta assim mesmo?

Eu estaria bem sem essa versão tão complexa de mim mesma?


A conversa terminou, continuei pensativa, decidi mudar o curso da minha terapia. Participo de terapia em grupo com foco principal na CRPS - Síndrome da Dor Regional Complexa, mas preciso de terapia individual. Por muitos anos relutei em fazer terapia, até que entendi que não preciso lidar e questionar tudo sozinha. Ter ajuda faz as coisas mais fáceis. Por mais que eu me sinta um indivíduo com sentimentos e pensamentos únicos no mundo, eu não sou. Todos temos nossas questões e em vários aspectos somos iguais. O que difere um indivíduo do outro é só o endereço mesmo, porque as bagunças internas são as mesmas, não importa a nacionalidade ou conta bancária. 


Algumas vezes me sinto correndo em círculos, voltando aos velhos hábitos e ciclos, porque nada parece realmente como casa. Então eu tenho esse sentimento inquietante de que estou fazendo alguma coisa errada. Estou dando tudo que eu posso dar? Estou tentando o suficiente? Não sou perfeccionista, longe disso, sou imediatista e espontânea. Algumas vezes não tenho nada para dizer, sinto apenas que estou quebrando corações, olhando no espelho vejo que o meu coração é o que mais foi quebrado, não pelos outros, mas por mim mesma, nessa tentativa desesperada de ser livre, de encontrar e tentar concertar o que sinto falta em mim mesma. 

Arte egoísta essa de ser uma procuradora.





Comentários

  1. Em primeiro lugar eu também amo a Miley e a contestação dela, demorei a entender quem ela se mostrava mas depois eu achei ela apaixonante justamente por ser tão intensa! Musicalmente ela é maravilhosa, mas a persona dela também é impressionante e talvez vocês se identifiquem tanto porque ela também é Sagitariana! hehehe Eu não sou, então embora eu admire muito isso, não consigo ser.

    MAS outra coisa com a qual me identifiquei muito nesse texto é a paixão e a identificação com personagens complexos de um jeito que talvez não seja tão bem visto pelas pessoas. Eu também amo esse tipo de personagem ficcional (mas confesso que sou um pouco impaciente na vida real) e as vezes acho que é justamente por ser tão assustador se ver tanto neles que é importante compreender e abraçar eles, pelo menos pra mim. Porque aí fica mais fácil lidar com o que não querem que eu seja mas eu não consigo evitar de ser... sei lá, foi isso que me veio lendo esse texto.

    E pode ter certeza que tudo está em equilibrio embora não pareça. Talvez a sua inquietude seja o exatamente o que te acalma... enfim, viajei bastante aqui hoje, mas é porque vi muitos pedaços meus nessas palavras.

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    1. Miley é maravilhosa, nao so por dividirmos o mesmo signo e por a minha personalidade ser muito parecida com o que ela mostra de si mesma. Ela é corajosa, honesta e real. Ela é incrível profissionalmente também.

      Eu tenho paixão por coisas "imperfeitas", penso que é onde mora a real beleza, os sentimento mais honestos. Na vida real fui cercada por esse tipo de pessoa por muitos anos, e me entendo como uma delas em muito aspectos também. Isso nem sempre é bom, tem de ser perspicaz para entender quando essa proximidade deixa de ser saudável. Eu gosto desses conflitos internos, mas odeio e não tenho paciência para pessoas que maltratam e machucam as outras por não saberem lidar consigo mesmas.

      "Talvez a sua inquietude seja o exatamente o que te acalma." muito poético e sábio.

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