Desenhando a Linha - Capítulo 8


 

“Não sei por que contei isso para você. Acabo de perceber que me meti em uma enrascada e você está fora de controle.” Yaya faz o gesto de revirar os olhos, fingindo não se interessar pelo que estou dizendo. 

“Caramba, Liv! Relaxa. É a sua festa de aniversário e você merece se divertir. Apenas confie em mim. Você terá o melhor aniversário da sua vida.”

“Tenho certeza que sim, desculpe, eu…” caminho até a janela mais uma vez. Vejo um casal adolescente sair da loja do outro lado da rua. O rapaz segura duas sacolas grandes na mão esquerda e um sorvete na direita, e a garota ri alto quando suja o nariz ao dar uma mordida no sorvete do garoto. Meus pensamentos vão direto para Hans. Balanço a cabeça como se para me livrar de abelhas ao meu redor. “Eu não tenho o hábito de comemorar meu aniversário com muitas pessoas ou em festas. Apenas isso.”

“Há sempre uma primeira vez para tudo. De qualquer forma, sua festa de aniversário será só no sábado, já que Bjørn não pode vir na quarta. Apenas relaxe e confie em nós.”

“Tudo bem,” me rendo.  “Mas não exagere, por favor.”

“Exagerar?” Yaya finge indignação e sai da minha sala rindo. 

“A propósito. Quer jantar na casa dos meus pais hoje?” grito para suas costas 

“Não me deixe esquecer de levar o vinho.” ela grita de volta. 

Volto ao trabalho, apago e escrevo novas notas em alguns contratos, faço algumas ligações e marco reuniões e visitas para a próxima semana. Perdida em minha organização, nao vejo a tarde passar. 

O telefone de minha mesa toca, deixo o lápis de lado para atender. 

“Pronta?” A voz de Yaya surge animada do outro lado.

 

Apesar de ser segunda-feira, a fila do caixa do Vinmonopolet está grande. Pessoas abastecendo seu arsenal para relaxar durante a semana. Olho para o meu próprio arsenal, duas garrafas de vinho branco, duas de vinho tinto e três garrafas de cerveja belga. Se contarmos as três garrafas de vinho de Yaya, teremos álcool suficiente para a minha festa de aniversário. 

“Quem compra essa quantidade de álcool uma segunda-feira à noite?” Yaya bufa para si mesma.

“Pessoas como nós.” Respondo, colocando minhas compras na esteira do caixa.

“Então, você vai sair com ela de novo?”

“Amanhã à noite. Lena quer ir ao cinema assistir ao novo filme de Tobias Santelmann.” 

Lena é a garota com quem Yaya divide apartamento. São amigas desde que Yaya se mudou para a Noruega, quando tinha quinze anos e seu pai se casou com uma norueguesa. 

“Ouvi dizer que o filme é muito bom.”

“Espero que sim.”

Caminhamos para a noite fria, em direção a casa dos meus pais. O céu está limpo, fico animada com a possibilidade de ter aurora boreal essa noite. Inspeciono o céu. Com certeza há um avião bem onde eu estou olhando. Contenho um bocejo, apesar de a semana ter apenas começado, o dia foi cansativo. 

Toco a campainha e esfrego as mãos para me aquecer. 

“Está muito frio essa noite ou sou apenas eu?” Yaya pergunta, enquanto assopra entre suas mãos fechadas. A sacola com as bebidas pendurada em um dos braços. 

“Sim, está congelando.”

Papai abre a porta alguns segundos depois. 

“Entrem, está particularmente frio para uma noite de outono. Vocês deveriam ter aceito a carona que ofereci.”

Deixamos nossos casacos e sapatos no armário da entrada e seguimos para a sala de jantar. Como sempre, mamãe já está com tudo pronto.

“Christina, você deveria aceitar nossa ajuda sempre que nos convida para jantar.” diz Yaya, abraçando mamãe. 

“Vocês sempre limpam a cozinha, isso já é ajuda o suficiente.”

“Oi, mamãe”. Ela me abraça, pega a sacola com as bebidas e segue para a mesa.

“Sentem-se, está tudo pronto.”

A mesa grande está montada para quatro, talheres, pratos e taças organizados como em um restaurante chique. Mamãe sempre priorizou as refeições como o momento mais importante do dia, não importa quantas pessoas estejam à mesa, tudo está sempre impecável.

“Alguém tem novidades?” mamãe pergunta. 

“Tudo igual para mim” respondo. 

“Vou ao cinema amanhã com Lena, mas não é um grande evento.”

“Ainda está muito cedo para fazer planos para o natal, mas tenho planejado irmos para a cabana por duas semanas durante as festividades. Yaya está convidada, se quiser se juntar a nós. Liv e Bjørn também.”

“Adoraria. Obrigada, Per.”

“Seremos apenas nós?” pergunto, desconfiada. Percebo o olhar observador e discreto de minha mãe para mim. 

“Não sei. Mørten e a família de Stein, talvez. Mørten está planejando alguma aventura com caça e pesca.”

“Bjørn vai estar com os pais em Oslo na noite de natal, mas, com certeza ele vai adorar se juntar a nós no dia seguinte.” sorrio, tentando disfarçar minha inquietude. 

Conversamos sobre trabalho, viagens, momentos aleatórios de nossas vidas, nem nos damos conta de que três das garrafas de vinho já estão vazias. Depois do jantar, Yaya e eu limpamos a cozinha.

 

Bjørn não mandou mensagem ou ligou desde a manhã, mas quando meu telefone toca, eu sei que é ele. Aperto o botão verde na tela do celular, enquanto desço os dois andares de escada para colocar o lixo no contêiner do lado de fora.

“Oi! Oslo está tão fria quanto o norte?”

“Ainda podemos usar camisetas e shorts. Acho que somos sortudos por viver nessa parte do país.”

“Você deveria aproveitar o máximo que puder. Essa sorte não vai durar por muitos meses.”

“Como você está?”

“Estou bem. Viemos jantar na casa dos meus pais, Yaya e eu. Estou colocando o lixo para fora.” 

“Diga ´oi` por mim.”

“Direi.”

“Precisarei viajar amanhã, mas estarei de volta para a sua festa de aniversário. Temos algumas reuniões em Amsterdã.”

“Yaya está planejando tudo sobre a festa. Isso me assusta bastante.”

“Posso imaginar.” ele sorri. 

“Vou para casa em alguns minutos. Te ligo quando estiver lá.”

“Ok. Te amo.”

“Eu te amo mais.”

Coloco o lixo no contêiner e corro apressada para dentro. 

“Aí está você! Pronta para ir?” pergunta, Yaya.


São quase 22h30 quando meus pés apressados deixam o pavimento da St. Olavs Gate, para entrar na Eriks Gate em direção a minha casa. O frio cortando o efeito das muitas taças de vinho que ingeri. Meu celular começa a vibrar no meu bolso assim que destranco a porta de casa. 

“Oi, amor” atendo, lutando para controlar um bocejo.

“Cansada?”

“E um pouco bêbada” rio. Deixo meus sapatos e casaco no chão e vou direto para o sofá.

“É um pouco tarde para você, não é?” 

“Tenho uma reunião amanhã às 10h30. Estarei me sentindo miserável demais para poder sentir qualquer outra coisa.” rio de mim mesma.

Ele ri e começa a dizer algo, que interrompo antes mesmo de ele dizer a primeira palavra. 

“Não zombe de mim, você esteve nessa mesma posição muitas vezes.”

“Check! Esperta como sempre.”

“De qualquer modo, estou ligando para perguntar se você quer ouvir Bob Dylan comigo.”

“Não consigo pensar em nada mais no mundo que eu queira. Mas não sei se conseguirei ficar acordada por muito tempo.”

“Não posso dizer que isso vá me surpreender”. Aquele maldito sorriso de canto de boca faz meu coração palpitar.

“Tem alguma sugestão?” ele pergunta, indo em direção aos discos.  

“Pat Garrett & Billy The Kid”

“Boa escolha.”

Puxo um cobertor sobre o meu corpo e me encolho no sofá a espera da voz de Dylan para preencher a noite.

“Você está bem?” Bjørn parece preocupado. 

Algo invisível aperta meus pulmões, deixando-me sem palavras e sem ar. Meus olhos se enchem de lágrimas. Álcool me deixa muito sentimental. 

“Sinto a sua falta.” digo, com as palavras estranguladas em minha garganta.

“Também sinto a sua falta. Muito.”

Há uma pausa, o silêncio cheio de palavras, mas minha mente está muito turva para entender o significado.

Então ele diz:

“Amo você. Apenas relaxe e ouça.” 



Esfrego o pescoço dolorido, faço uma careta, olho ao redor para me localizar. Olho o celular. Sao 4h29 da manhã. Droga! Tento enganar minha mente na esperança de voltar a dormir, meia hora depois subo as escadas em direção ao banheiro. Quando dou a descarga, a tubulação soa como um avião velho em meio a quietude da noite. Vou para o chuveiro desejando que a água se transforme em paracetamol e leve embora a dor de cabeça e a ressaca. 

Meu pescoço está duro de dormir no sofá e estou desconfortável. Seco os cabelos e me jogo na cama, ainda posso obter algumas horas de descanso antes de ir para o trabalho. Tento dormir, mas a dor de cabeça é minha inimiga. Pego o telefone na mesinha ao lado da cama e rolo a tela com o polegar. Curto algumas postagens no instagram, respondo algumas mensagens no Snapchat e verifico meus e-mails. Tenho um e-mail novo, o remetente é Bjørn. Clico para abrir e começo a ler. 

 

De: bjørnolsen@gmail.com

Assunto: Bob Dylan

Data: 18 de setembro de 2020 00:56

Para: aneliv@gmail.com


Noite passada foi a primeira vez em alguns meses que me senti em paz e em casa. Você estava no meu lugar favorito, o sofá da nossa sala (sim, nossa sala, mesmo ainda vivendo em Oslo, o meu lar é aí com você) e eu aqui nesse apartamento, tão solitário sem a sua risada preenchendo os cômodos. Nós conversamos por poucos minutos, coloquei Bob Dylan pra trocar, então, The Doors, que eu ouvi sozinho. Você é linda, ainda mais quando está um pouco bêbada ou sonolenta. Deixei que apenas as músicas fossem palavras suficientes. Senti falta da sua voz cantando junto, como você costuma fazer. 

Isso durou por um longo tempo, tempo suficiente para eu escrever essas palavras e também cair no sono, entretanto, não sem me despedir. 

Noite passada foi tão confortável que me senti em paz e em casa. Tão confortável como costumava ser todos os dias com você aqui ao meu lado. Nós dois no sofá, a sala quase na escuridão, a lenha crepitando na lareira e a melodia se espalhando em ondas através dos speakers. É tão confortável que eu sempre caía no sono e acordava várias horas depois com a sua voz me dizendo que era hora de ir para a cama. Às vezes ficávamos a noite toda no sofá mesmo. 

Ontem a noite, enquanto a minha voz se misturava a de Dylan e Jim, eu pude sentir o calor das chamas na lareira, o cheiro de lenha queimando, o cheiro do teu corpo próximo ao meu. Então eu me senti em casa. Eu fui transportado para o meu lugar seguro. Você.

Esses momentos simples são os meus favoritos e os que mais sinto falta.


Eu sinto falta do seu olhar pensativo enquanto analisa a distância entre os speakers e a parede, para que o som tenha mais qualidade. 


Eu sinto falta da sua necessidade de mudar todas as coisas de lugar constantemente. 


Eu sinto falta de você sentada no chão da sala com vários discos de vinil espalhados ao seu redor. Seus olhos brilham como os de uma criança indo à Disney. E você sorri enquanto fala sobre música, especialmente, Noah Gundersen. 


Eu sinto falta de cozinhar para você enquanto ouvimos música. Em quase todas as vezes compartilhando uma garrafa de vinho. 


Eu sinto falta de você sentada à mesa da cozinha durante as manhãs nos finais de semana. Uma xícara de café nas mãos, olhos atentos a janela, vendo o mundo acontecer lá fora. Qualquer canção saindo em ondas do rádio. 

                

Eu sinto falta de você cantando uma canção para todas as frases que digo ou todas as situações que vivemos.  Eu sinto falta de jogar cartas com você - e ganhar - enquanto ouvimos música. Especificamente, Ben Harper. 

                

Eu sinto falta de caminharmos de mãos dadas para o centro de Oslo, para você comprar novos discos de vinil.  Eu sinto falta de você e seus fones de ouvido. Sua companhia para todos os lugares. 

                

Eu sinto falta de você me pedindo para distinguir a qualidade do som quando você move os speakers de lugar ou muda a configuração daquela coisa que eu não sei o nome. 

                

Então eu sinto falta das nossas “brigas” no início do nosso relacionamento, porque eu não sabia distinguir nada e tudo para mim soava do mesmo jeito e você queria que eu pudesse perceber a diferença, mas eu não conseguia fazer. Você é perfeccionista e isso, às vezes, é enlouquecedor. 

                

Eu sinto falta de você e de todos os sons e canções que são tão seus, tão nossos. 

                

Você sempre me envia mensagens com letras de músicas. Músicas que falam sobre os seus sentimentos por mim, músicas que ouvimos juntos, que são importantes para você e quer dividir comigo. Isso é a coisa mais especial e sensível que alguém já fez para mim. 

                

Me lembro de uma de nossas conversas em algum momento desses últimos cinco meses. Eu te disse que você me ensina a ser paciente. Então você sorriu, aquele seu sorriso com os olhos (o meu favorito) e disse “sério, amor?”. Eu disse que sim, porque eu preciso ser muito paciente para lidar com o seu perfeccionismo. Nós gargalhamos disso por alguns minutos. 

Eu nem sei porque estou falando sobre isso, porque não tem nenhuma ligação com esse texto romântico que estou tentando escrever. São 02:14 da manhã, estou tentando finalizar esse e-mail, mas as palavras surgem de algum lugar que não sei onde é. Bob Dylan está cantando novamente. 

                

O nosso relacionamento sempre foi sonoro e isso é especial e importante para mim. Eu não mudaria nada em você ou nessas canções e momentos que falam sobre nós. 

Eu te amo. 

Nos vemos no próximo final de semana.



Termino de ler o e-mail com um soluço subindo pela minha garganta enquanto as lágrimas começam a correr pelo meu rosto, sem que eu consiga impedi-las. 

Clico em responder e começo a digitar apressadamente as palavras que expressam o que eu sinto agora. 



De: aneliv@gmail.com

Assunto: What have i done

Data: 19 de setembro de 2020 05:32

Para: bjørnolsen@gmail.com



“Bom Deus, eu sei que é perigoso, mas é de você que eu preciso

Estou apaixonado desta vez

Estou apaixonado desta vez

O que eu fiz?

O que eu fiz?

Desde a outra noite

Eu estive pensando sobre a maneira como você sorri dourado

Quero entrar na sua luz

Desde a outra noite

Eu estive pensando sobre a maneira como você sorri dourado

Quero entrar na sua luz

O que eu fiz?

Oh não, o que eu fiz?

Seja valente por mim, agora

Eu nunca pensei que precisava ser salva, estava bem onde deveria estar

Bom Deus, eu sei que é perigoso, mas é de você que eu preciso

Estou apaixonada desta vez ”


EU TE AMO.

Nos vemos no próximo final de semana.

 

Deixo a voz de Dermot Kennedy fazer companhia para as lágrimas que ainda estão escorrendo pelo meu rosto.

 

"Droga! Estarei tão apresentável quanto um acidente de trem." digo em voz alta.

 


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