Desenhando a linha - Capítulo 9

 



Finalmente o grande dia chegou. Vinte e seis anos. Mas não me sinto mais velha, me sinto como a mesma Liv Foss de sempre, mas para ser justa comigo  mesma, me dou crédito por não agir impulsivamente. Há idade certa para deixar de ser impulsiva e ser mais comedida e centrada ou isso é apenas uma característica de cada indivíduo? 

Você sente mais velho quando faz aniversário ou se sente o mesmo de antes? 

Tomo banho, mas não lavo meus cabelos, eles parecem bonitos com esse ar bagunçado, escolho uma meia calça preta de lã e coloco um vestido também preto de tecido grosso e mangas longas, ele se ajusta bem ao meu corpo e vai me proteger do frio. Não tenho o hábito de usar maquiagem, mas decido aplicar uma camada de máscara para os cílios e batom vermelho.  

“Vinte e seis anos.” digo para o meu reflexo no espelho.  “Você está bonita, Liv,” complemento.  

Aplico um pouco de perfume, desligo as luzes do quarto e desço para colocar os sapatos. Escolho meu par de botas pretas e velhas. São confortáveis e tudo que um aniversariante não deseja é estar desconfortável com o que está vestindo. Confiro o relógio, coloco o meu casado e deixo que o ar frio da noite refresque meus pulmões.  

Caminho um pouco mais rápido. Não quero chegar atrasada ao meu próprio jantar de aniversário. Meu corpo ainda sente a ressaca da bebedeira de segunda à noite, é melhor eu me manter longe das bebidas essa noite. Se pudesse ter um super poder, eu queria não ter ressaca nunca mais, seria muito melhor que tele transporte ou poder voar e ler a mente das pessoas. Quem está interessado em ler a mente das pessoas? Pelo amor de Deus!

Vou jantar com meus pais, só nós três. Bjørn está em Amsterdam. Acordei hoje de manhã com uma entrega de flores, chocolates e vinho e um cartão em que dizia para eu esperar por ele para que pudéssemos abrir o vinho juntos. Recebi mensagens lindas de Yaya, Leo e Peter, com promessas de uma festa inesquecível no sábado à noite. 

Atravesso o parque em meio à escuridão, o orvalho grudando em minhas botas. O restaurante é no alto da colina, com vista para o mar. Durante o verão o local fica cercado de árvores e as mesas do lado de fora ficam lotadas. Me sinto no controle ao seguir meu percurso, passando entre as mesas até o local próximo a janela onde meus pais estão aguardando por mim, já acomodados.  

 “Liv!” Exclama mamãe.  

Ambos se levantam e passamos os próximos cinco minutos alternando entre palavras de felicitações e abraços.  

“Desculpe por deixá-los esperando.” digo, enquanto nos acomodamos.  

“Na verdade, nós é que chegamos um pouco cedo.” Papai comenta. “Pedimos vinho.” 

“Arrggg. Só de pensar em vinho já sinto vontade de me encolher e chorar. Apenas suco para mim.” 

O garçom se aproxima para anotar nossos pedidos. Escolho bacalhau com legumes e suco de laranja com limão e gengibre. Meus pais decidem por filé com algum acompanhamento que parece mais caro que gostoso.  

O jantar foi maravilhoso, para sobremesa pedi bolo de chocolate com sorvete de maracujá. Conversamos e rimos muito, mais uma vez me senti grata pela família que tenho e pela liberdade e amizade que temos. A noite foi simplesmente perfeita. Cada momento com eles me faz abrir um sorriso tão grande que devo ter ficado com cara de maluca durante todo o jantar. 



 

Assim que papai estaciona o carro em frente a minha casa, vejo Hans a poucos metros de distância. Sentado na moto e fumando, ele parece muito à vontade consigo mesmo. Assim que nos vê, joga o cigarro no chão e o amassa com o pé. Então caminha até o carro. É a primeira vez que o vejo desde nosso beijo na praia. 

“Christina. Per.” ele diz, com aquele jeito estranho de cumprimentar as pessoas.  

A conversa dura por alguns minutos, ele do lado de fora e nós dentro do carro. O ar gelado entra pela janela aberta me fazendo estremecer, ou talvez seja apenas o fato de ele estar do lado de fora da minha casa esperando por mim. Mas talvez ele não esteja esperando por mim. Talvez esteja apenas esperando para falar com meus pais ou só parou para fumar o cigarro e irá embora assim que meus pais também forem.  

“Papai, está congelando, deveríamos entrar ou convidar Hans para se juntar a nós aqui no carro.” 

“Desculpe, você tem razão” papai diz. “Já está tarde e temos de ir pra casa.” 

Me junto a Hans no ar cortante da noite e nos despedimos de meus pais. 

Ficamos em silêncio por alguns segundos, então ele tira algo do bolso e me entrega.  

“É um presente para você.” 

“Não posso aceitar.” 

“É pelo seu aniversário” ele me interrompe, seu rosto expressando um sorriso enigmático. 

“Não posso aceitar.” repito. 

“Isso você já disse” corta ele, um pouco sério e impaciente.  

Abro o pacote e encontro um chaveiro com uma Harley Davidson preta. 

“Uau, é lindo. Obrigada, mas não posso aceitar.” Coloco o chaveiro de volta em sua mão. 

“É apenas um simples presente de aniversário, Liv. Não significa qualquer outra coisa.” 

“Não tenho tanta certeza disso” Digo, com lembranças do nosso momento no mar caindo como um raio em minha mente. 

“Tem muitas suposições erradas sobre mim na sua mente. Gostaria de saber de onde tirou essas idéias preconceituosas e sem sentido a meu respeito.” 

“Não estou sendo preconceituosa ou insinuando qualquer coisa.” 

“Muito bem, então prove. Aceite meu presente.” 

“Aceitar o presente não provará coisa alguma.” 

“Significa que você não tem medo de mim.” Diz me olhando nos olhos. 

“Medo?” Digo perplexa.  

Tenho muita coisa para dizer a ele, mas decido não dizer nada. Isso só deixaria as coisas mais desconfortáveis, e ele pensaria que eu estava analisando demais, pensando nele demais. De forma alguma esperava encontrá-lo aqui hoje a noite, ou qualquer outro dia. Como me permiti pensar nele com tanta freqüência? Eu deveria ter aprendido a lição da primeira vez.  

“Você se afasta de mim sempre que pode.” ele retoma a conversa. 

“Não é por medo. Eu apenas estou  tentando te evitar. E na ultima vez que nos encontramos eu estava furiosa com você.” 

“Por que o seu namorado não está aqui? É o seu aniversário.” a pergunta me deixa furiosa e ao mesmo tempo, me incomoda. Ele desperta em mim sentimentos que não estou habituada e também não gosto da maneira como ele me faz questionar certas coisas, mesmo involuntariamente.  

“Isso não é da sua conta, mas você provavelmente você sabe muito mais do que deveria saber. Aliás, como você sabia que ele não estaria aqui?”  

“Não sabia.” ele diz, simplesmente.  

O encaro sem saber o que dizer, mas, por fim digo: 

“Não sei como funcionam os relacionamentos para esse lado do país e talvez isso não seja importante para você, mas não gosto de ser agarrada e beijada contra a minha vontade.” 

“Aquele beijo aconteceu naturalmente, porque ambos estávamos interessados. Acho que é assim em qualquer lugar do mundo.” Diz ele, debochado. 

“Você está errado ao dizer que ambos estávamos interessados.” 

“Pois tive a impressão de que você me deu um sinal.” 

Sinto o meu rosto queimar quando me lembro do momento de estranha intimidade na praia.  

“Não houve sinal algum, você estava equivocado.” rebato. 

“É mesmo?” Há ceticismo em seu tom de voz e em seu olhar, mas ele não me dá a chance de responder, sugerindo: “Deveríamos entrar, está muito frio aqui fora.” 

Olho para meus próprios pés me sentindo uma idiota. Engulo meu orgulho e todo o meu bom senso quando digo: 

“Vamos para dentro.” 

Tiro a chave da bolsa e sigo para a porta.  

“Acho que você se esqueceu de algo.” Me viro e o vejo segurando o chaveiro. 

“Não posso aceitar.” insisto. 

“Você poderia parar de repetir isso?” Fico muda e apenas olho para ele, que se move e pega as chaves em minha mão. “Você se importa se eu fizer isso?” Diz, segurando as minhas chaves no ar. 

“O que vai fazer?” 

“Me certificar de que use o presente.” Ele coloca a chave no chaveiro e vai em direção a porta, a destranca e entra.  

“Vai ficar aí fora?” 

Demoro alguns segundos para me dar conta de que ele está dentro da minha casa e estou do lado de fora. Acho que as coisas deveriam estar invertidas. Sigo para dentro e fecho a porta atrás de mim.  

“Está confortável?” Digo olhando para ele já colocando lenha na lareira.  

“Pode ficar melhor, assim que tivermos um pouco mais de calor.”  

O fuzilo com o olhar.  

“Hey, não precisa me olhar assim. Estou te poupando do trabalho. Se vamos passar algum tempo juntos, preciso que isso seja quente.”   

Vou até a cozinha e abro a geladeira em busca de algo para beber. Sou uma adulta de vinte e seis anos, conseguirei ter uma conversa racional por alguns minutos com aquele homem lá na sala. Pego uma Nordlands para ele e suco para mim.  

Seu sorriso vai dos lábios até os olhos. Preciso começar a lidar com o fato de que viver aqui significa tê-lo por perto, tê-lo como parte da minha vida e dos meus dias. Um fato está claro: Hans não está apaixonado por mim.  

Me sento na outra ponta do sofá, me sinto tímida enquanto ele parece confiante. Encaro o chão por um momento, bebo um pouco do meu suco para aliviar o nervosismo, então olho para ele. Os olhos brilhando em expectativa, como se esperando para que eu diga alguma coisa, tento ler a expressão em seu rosto, ele aparenta casualidade, confiança e calma. Eu sou o oposto disso e estou certa de que ele pode ouvir as batidas do meu coração e a minha respiração agitada.  

Ele quebra o silêncio, fazendo minhas entranhas tremerem. 

“O lance com Bjørn é serio?” 

“Não é um lance, Hans. Nós estamos juntos há três anos e ele está de mudança para Harstad assim que possível. Eu o amo, ele me ama, queremos estar juntos.” 

“Você não é indiferente a mim.” 

“Não. Não sou.” eu poderia mentir e pedir que ele vá embora, mas a honestidade, por mais que doa a quem diz, é a melhor opção. “Mas também não significa que eu queira ter um relacionamento com você. Sinto que temos uma conexão, que nos entendemos sem precisar de muitas palavras e essa é a razão para eu ser honesta com você. Você saberia se eu mentisse e isso faria as coisas mais interessantes para você, como um desafio.” 

“Eu gosto de desafios, mas não quando envolve sentimentos.” Ele bebe da taça e continua “Nos conhecemos desde que nascemos, vivemos mais da metade de nossas vidas juntos. Você sempre foi a irmã que eu não tive, mesmo que não fossemos confidentes. É confuso para mim olhar para você e querer beijá-la, mas eu quero, Liv, e não sou o tipo de pessoa que não luta pelo que quer. Também não sou de meias palavras ou joguinhos. Se eu não puder te dar a minha verdade, então eu não tenho nada para te dar.” 

As palavras dele bloqueiam meus pensamentos. Não sei o que dizer ou como reagir.  A barreira que eu criei desmorona, se desfaz rapidamente. Entra em declínio. O termo que você preferir. Nem tenho certeza se ele é um culpado, ou se há um culpado. Sou a única em um relacionamento aqui, sou eu quem devo controlar as minhas ações, já que as emoções não estão completamente fora de controle. Toda a força que reuni para estar longe dele se enfraquece em momentos como esse de agora. Ele é habilidoso com as palavras, isso é perturbador. Não falo sobre como ele me faz sentir, verbalizar torna tudo mais real. A minha habilidade de evitar problemas sempre foi o ponto forte de minha personalidade. Tenho de ser mais cuidadosa, ter mais atenção no que minha mente fala do que nas palavras que saem da boca dele.  

Em minha defesa, é difícil admitir que ter sentimentos por alguém quando eu já amo outra pessoa. O amor está lá, não está no passado.  As pessoas são levadas a acreditar que só se interessam por um novo alguém quando o amor pelo outro acaba. Quando a magoa, a dor e outros sentimentos não tão bons substituem a felicidade. Mas se a felicidade não foi substituída por nenhum outro sentimento, por que o interesse? As pessoas não podem controlar as circunstâncias que as transformam.  

Ele está encostado no braço do sofá, o corpo voltado para mim, sua curiosidade faz suas sobrancelhas se juntaram enquanto ele olha para mim. Seus olhos esperando por uma resposta ou ao menos um sinal. Ele enche a sala com sua presença. Ele se aproxima lentamente, seus movimentos quase imperceptíveis, o cheiro de vinho deriva dele em ondas. Eu realmente gosto de como o cheiro fica tão bem nele.   

Eu posso ouvir todos os seus medos em cada movimento do corpo dele, em cada centímetro que ele se aproxima, mais e mais, até sua respiração fazer a minha pele se arrepiar.  

“Liv” 

Me concentro em seus olhos o tempo todo. Ele gentilmente toca meus cabelos. As mãos dele são lindas, grandes, dedos longos, unhas no formato perfeito. Prendo a respiração ao me lembrar do movimento de suas mãos passando lentamente por seus cabelos, retirando os fios do rosto. Cuidadosamente movo minhas mãos sobre minhas coxas, muito próximas das deles. Ele inclina o rosto levemente para a direita, um centímetro para frente, então mais um e mais um, pressionando um beijo em meus lábios. Eu fecho meus olhos e sutilmente me afasto.  

Preciso de toda a minha força de vontade para que minhas pernas parem de tremer e eu consiga ir até a porta, abrindo-a, para que ele entenda o recado. Ele me olha com um sorriso que vai dos olhos até os lábios.  

“Tudo bem” 

Ele se levanta, passa as mãos pelo cabelo arrumando os fios. Ele parece exasperado. Assim que ele sai porta a fora, digo: 

“Muito obrigada por isso” Indico o chaveiro. 

“Foi um prazer.” Sem vacilar, Hans levanta meu queixo suavemente e planta um beijo firme em meus lábios.  

“Como eu devo interpretar a nossa conversa e o nosso beijo? Não o de agora, mas o que aconteceu ontem na praia.” 

“Não há nada a ser interpretado, Hans. Porque a única pessoa que quero beijar está longe daqui nesse momento.” 

“Acho que mereci essa.” 

Os lábios dele se curvaram com o esboço de um sorriso debochado. Então me viro para fechar a porta esperando que ele vá embora, sua mão segurando meu braço me detém. 

“Não tenho ideia de como você se sente em relação a mim, às vezes acho que sei te ler muito bem e que posso me aproximar, mas então você se fecha e se afasta e eu não sei mais até onde posso ir sem ser inconveniente ou parecer idiota por estar me apaixonando por uma mulher que está em um relacionamento. Essa é uma primeira vez para mim e não sei o que fazer, tampouco, me orgulho disso.” ele faz um gesto com a mão dando a entender que se refere a nossa situação. “Mas sei que não estou sozinho nessa.” diz, inesperadamente. 

“Eu... eu não sei o que dizer. Eu te conheço a minha vida inteira e mesmo assim eu não o conheço muito bem. 

“Estou tentando mudar isso. Mas você não tem facilitado muito as coisas pra mim.” 

“Eu não posso… eu não quero…” 

Ele aproxima o rosto mais uma vez, e não tento evitar o beijo. Dessa vez, a carícia é mais longa, intensa. Quando o beijo termina, sinto como se ele pudesse ler meus pensamentos. Entro em casa antes que ele tenha tempo de dizer alguma coisa. 


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