A empatia é seletiva



Todos estão comentando sobre a possível ida de Cristiano Ronaldo para o Manchester City. Muitos dizem ser uma ação traiçoeira para com o Manchester United, Sir. Alex e a torcida Red Devil.  Mas, mais que o empasse sobre manter a lealdade para com o clube onde ele ainda tem milhares de fãs, essa transferência também abre  espaço para questionamentos éticos e morais em relação aos clubes de futebol. O que faz parecer que no Brasil a voz do torcedor e o peso da sociedade tem mais força que na Europa. Ou talvez o futebol brasileiro só tenha menos dinheiro mesmo e mais necessidade de patrocínios. 


CR7 é, indiscutívelmente, um dos melhores jogadores do mundo. É um jogador de alto nível. Mesmo não sendo mais tão jovem, é um reforço de respeito para qualquer time, futebolisticamente falando. 


Deixando de lado por alguns minutos a voz da Leidiane amante de futebol, eu quero falar sobre essa transferência como uma mulher. E preciso pontuar outro fator, uma mulher vítima de estupro em fases diferentes da vida. 


Ser vítima de violência sexual me faz questionar padrões sociais que acredito não ser questionado por todos, principalmente em ambientes mais masculinizados, como é o futebol. 


Cristiano Ronaldo é acusado de estupro num caso que aconteceu em 2009 (que permanece em aberto) onde se diz inocente. Mesmo assumindo ter pago a vítima para abafar o caso e não manchar sua carreira, torcedores não se questionam sobre o caráter dele ou no que isso implica para milhares de crianças que o tem como ídolo. 


Vemos todos os dias que é muito fácil ser inocentado em acusações de estupro e agressão quando se tem dinheiro e influência para calar e desacreditar qualquer garota e juíz. 

E não me venha com o papo de “oh, mas porquê denunciou só agora?” ou “porquê aceitou o dinheiro?”. Se você não é uma vítima de estupro e agressão, você não tem lugar de fala aqui. A sua opinião não conta simplesmente por você não saber como é viver esse trauma e o quanto esse tipo de violência paralisa, envergonha, assusta e interfere na saúde mental da vítima. E mesmo que você conheça pessoas que denunciaram assim que o crime aconteceu, as reações são diferentes para cada vítima e mesmo as que denunciam continuam envergonhadas, assustadas, necessitando de tratamento psicológico e com medo do que pode acontecer com elas e principalmente se terão credibilidade em suas denúncias. 


A sociedade tapa os olhos e finge não ver as acusações ou crimes daqueles em que depositam sua admiração e amor. Mas ao mesmo tempo não fecha a boca e morde a língua ao acusar e fazer piadas sobre as vítimas. 

A sensação que dá é a de que não há nada de errado em continuar admirando e comprando camisas com nomes de pessoas como Cristiano Ronaldo e Ryan Giggs, afinal eles são ídolos de várias gerações, que acreditar em mulheres que não estão na mesma situação financeira e status. 

Claro que existem acusações falsas e essas tiram a credibilidade das reais, mas essas acusações são uma para milhares verídicas. Mas é aquele ditado, né? Até que se prove o contrário, eu vou continuar acreditando na vítima. 


Aos olhos da sociedade, Cristiano Ronaldo já deixou de ser o possível agressor, se é que algum dia foi considerado um. Mas aos olhos dessa mesma sociedade a garota nunca deixou ou deixará de ser a “oportunista tentando ficar rica as custas do dinheiro de um ídolo mundial”. 

Dá pra entender o quão pesado é e o quanto isso molda a vida de uma mulher? Não importa quantos anos passem, onde moram, o que fazem, as vítimas são sempre lembradas como as oportunistas tentando extorquir ou difamar alguém para ganhar dinheiro fácil, enquanto eles ficam mais ricos, mais famosos, ganham mais troféus, prestígio e aumentam ainda mais seus status de ídolos. 


A empatia é seletiva. 

Ela seleciona fama, altos cargos profissionais e quem tem mais dinheiro. Quem não se enquadra nessas posições não é digno de empatia. A empatia é seletiva e ela não está ao lado das mulheres, definitivamente. 

As mesmas pessoas que condenam os milhares de “Zé Ninguém” em reportagens diárias sobre violência sexual e agressão no jornal noturno, são as mesmas pessoas que compram camisas e idolatram jogadores que cometem os mesmos crimes. 

Qual a diferença entre um “Zé Ninguém” e um jogador de futebol, além da fama e salário alto? Nenhuma! Porquê então a seletividade? É um questionamento que me faço diariamente sobre nós seres humanos enquanto sociedade. 


Sendo mulher, cidadã e torcedora, não quero (mais do que já está) associados ao futebol, jogadores acusados de estupro ou agressão. Pois, mais que um esporte ou uma instituição, jogadores de futebol são espelho para o caráter de milhares de jovens ao redor do mundo. E sim, os clubes precisam se importar com assuntos como esse! O que fica é o entendimento de que não importa qual crime o jogador venha a cometer, se ele faz gols o suficiente e é ganhador do prêmio de melhor do ano, está tudo bem, a gente finge que não sabe sobre as acusações e segue em frente sem se importar e respeitar as vítimas. 


Não vestir uma camisa com o nome de CR7, Ryan Giggs, Robinho e vários outros estampado na costas, é o mínimo que eu posso fazer pela torcida e população feminina e por mulheres que assim como eu, são vítimas de estupro e agressão. Aquele nome estampado nas costas da camisa carrega não só o sobrenome do jogador, mas as nossas crenças e admiração por um ser humano. 


A pergunta não deveria ser se essa transferência é um ato de traição ou não, mas sim, porquê clubes ainda pagam milhões em contratos e dão tanta mídia para jogadores que tem seus nomes em processos judiciais relacionados a estupro e agressão.


Sim, é uma falta de respeito, não de CR7 para com o Manchester United, mas dos clubes de futebol para com as mulheres. 



Comentários

  1. Parabéns pela reflexão! Assino embaixo.

    Bom fim de semana!

    OBS.: O JOVEM JORNALISTA está em Hiatus de inverno de 02 de agosto à 02 de setembro, mas comentaremos nos blogs amigos nesse período. Mesmo em hiatus, o blog tem um post novo, não deixe de conferir.

    Jovem Jornalista
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    Até mais, Emerson Garcia

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    Respostas
    1. As vezes o ser humano me assusta.

      Obrigada pela visita!

      Te vejo em breve!
      Beijos.
      Leidiane Holmedal | leidianesbueno@gmail.com
      Watermelon Curly
      Instagram Watermelon Curly

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  2. Amiga, eu amei a sua reflexão. Você consegue trazer qualquer assunto pra um ponto reflexivo!
    <3

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