mar aberto

sou uma pessoa muito quieta e reservada, apesar de não parecer. tenho muita dificuldade para socializar e me sentir confortável quando estou rodeada por pessoas, mesmo quando são pessoas com quem tenho relacionamento próximo. também sou bastante calada. converso muito quando é sobre assuntos que gosto ou com pessoas com quem tenho afinidade, consigo ser comunicativa por um curto período, depois de algum tempo me sinto exausta e sintomas físicos começam a surgir, como dor de cabeça e confusão mental. é como se colocando em ordem as palavras e sentenças meu cérebro precisasse de uma pausa para descanso. 


em quase um ano de terapia com minha psicóloga atual consegui ir muito mais longe do que jamais pensei e é nítida a diferença da pessoa que eu era ano passado e a que sou agora. sou muito mais ativa socialmente, fiz novas amizades, me permito conhecer e encontrar pessoas. a diferença é realmente gritante e me sinto muito feliz por isso. 

ao longo dos meses de terapia fui diagnosticada com alguns transtornos, dentre eles Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade - TDAH e Autismo. depois desses diagnósticos parece que tudo fez sentido, sabe? Todas as pequenas e grandes coisas que eu e todas as pessoas que me conhecem desde a infância sempre acharam estranhas em mim fizeram sentido, como numa daquelas cenas de filmes em que a luz se acende quando a personagem tem uma ideia. e eu pensei “CARACA! como eu nunca pensei nisso antes? como ninguém percebeu isso em mim antes?”

todos os anos de dificuldade de aprendizado na escola; as dificuldades de concentração, dificuldade em aprender coisas teóricas simples, as dificuldades de convívio social; ser completamente estabanada, o meu silêncio; o mundo que existe e vivo dentro de minha cabeça, a minha repetição de coisas e assuntos no cotidiano… tantas coisas, tudo fez sentido após o diagnóstico. quanto mais leio e aprendo sobre meus transtornos, mais me percebo e ter essa consciência de mim mesma tanto fisica quanto emocional e mentalmente é maravilhoso e gratificante. a terapia e os diagnósticos me ajudam a me entender, me aceitar e lidar com tudo e ter mais qualidade de vida. me jogo na vida sem medo e experimento coisas novas tanto físicas como emocionais. eu amo viver. viver é, definitivamente, a minha coisa favorita. 


as férias de verão foram incríveis, fizemos uma road trip pela súecia e noruega. visitei muitos lugares maravilhosos e encontrei muitas pessoas, consegui aproveitar e viver cada momento, mas sugou toda a minha energia física e mental. estar rodeada de pessoas e ter de conversar e socializar o tempo todo me deixa esgotada e dessa vez eu percebi que me afetou mais que das outras vezes. talvez por ter ido pra um lugar novo e passar vários dias socializando com pessoas que não estão no meu convívio diário. quando estamos só meu marido e eu é tranquilo, ele sabe das minhas dificuldades e não me força a conversar ou espera que eu socialize. ele simplesmente me deixa no meu silêncio e quando eu quero conversar, eu converso.


desde que cheguei de viagem tenho me sentido meio sem chão. cancelamos o restante da viagem pq eu já não estava conseguindo mais tanto física quanto mentalmente. na semana passada almoçamos com minha melhor amiga e a filha dela, cheguei em casa tão no fundo do poço que parece que não havia mais nada em mim. tínhamos um encontro com nossos amigos noruegueses depois do almoço com minha amiga e eu apenas fui lá dizer para eles que eu não estava bem e que ficaria em casa, nem força e vontade pra conversar eu tinha.


saio com meu marido, fazemos caminhadas, vamos a restaurantes, vamos ao cinema e eu consigo me divertir e aproveitar, mas esses dias se for mais que apenas ele, já fica pesado demais. ontem ele me disse que nossa madrinha de casamento convidou todos os nossos amigos pra ir pra fazenda no próximo final de semana, enquanto ele falava eu senti uma vontade tão grande chorar, gritar, correr e me esconder, porque eu não quero conversar e estar rodeada de pessoas. ano passado fizemos essa mesma viagem, com os cancelamentos fomos um total de sete pessoas e no segundo dia eu já queria chorar e vir pra casa, passei os dois últimos dias mais no quarto que com as pessoas. 

disse pra ele que ainda não estou bem pra ir e estar com muitas pessoas, que preciso de mais tempo. ele me entende e não cobra nada de mim. ele vai com nossos amigos e eu vou ficar sozinha em casa, o que vai me ajudar bastante a relaxar e me entender. 


estou tentando me entender, aceitando esses sentimentos e respeitando meus limites. não quero me forçar a socializar sem me sentir ao menos mais leve. está pesado me sentir assim. a sensação que tenho é a de que nas férias eu regredi muito dos passos à frente que dei no último ano, mas eu sei que não regredi, só de entender o que está acontecendo comigo é um grande passo, um passo certo. tudo na vida é fase, algumas delas são mais difíceis que outras. minha amiga Fernanda me disse “é importante você ter em mente que qualquer tratamento não é linear, ele vai ter altos e baixos. você não regrediu, você só não está no seu melhor, mas logo você voltará para ele.” 


enquanto não estou nos meus melhores dias, irei com calma, um passo por vez. sairei sozinha até me sentir confortável novamente para encontrar pessoas. aproveitar minha própria companhia é algo que faço bastante e amo. amo estar comigo mesma, ir ao cinema sozinha, fazer compras, caminhar, exercitar, dançar. sei da importância da interação social e luto diariamente para fazer parte dela, mas por enquanto a minha companhia, terapia e minhas playlists com as mesmas músicas de sempre é o que preciso.  esse post não é uma lamentação, é apenas a exteriorização dos sentimentos que tem vivido dentro de mim.


a música do post de hoje é Open Sea de Thomas LaVine. A voz dele me acalma e suas letras honestas e vulneráveis se parecem muito com como me sinto em muitos momentos. 


“Cause I´m not escaping

The waves that cover me

I stared at the shoreline

I let it move me 

And there was a calming sense of nothing in soul 

Hold on

Let´s run to the open sea”




 

Comentários

  1. A vida é um verdadeiro aprendizado, seja com os momentos ruins ou bons!

    Boa semana!

    O blog está em Hiatus de Inverno entre 02 de agosto e 02 de setembro, mas comentaremos nos blogs amigos nesse período.

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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    1. Com certeza! E todos eles valem a pena. 🥰

      Te vejo em breve!
      Beijos!
      Leidiane Holmedal | leidianesbueno@gmail.com
      Watermelon Curly
      Instagram Watermelon Curly

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  2. Oi, Leidi!
    A gente já conversou sobre isso, então vou dizer o que me passou pela cabeça enquanto lia o seu texto, que eu ainda não disse: acho que esse lance de não perceber tbm se relaciona com o fato de que esses diagnósticos também são muito novos pra própria medicina... Na pedagogia não se falava sobre essas dificuldades até alguns anos. É complexo.
    O grande lance é se conhecer e não se forçar de uma vez.
    Aos poucos tudo se encaixa.
    Estamos juntas! <3

    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

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    1. Sempre se encaixa. ♥️

      Te vejo em breve!
      Beijos.
      Leidiane Holmedal | leidianesbueno@gmail.com
      Watermelon Curly
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    2. Sempre se encaixa. ♥️

      Te vejo em breve!
      Beijos.
      Leidiane Holmedal | leidianesbueno@gmail.com
      Watermelon Curly
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