Maria

Me lembro de minha avó, Maria. 

Pedaço de pano amarrado à cabeça. 

Os cabelos, às vezes num coque, 

às vezes, presos sobre os ombros, 

torrando café. 

As mãos sujas de carvão do fogão à lenha, 

girando o pedal da engenhoca, 

que a fazia suar.

Passava muito tempo ali, hora torrando café, 

hora fritando a carne para a família grande, 

quase vinte pessoas. 

Pobre, Maria.

Passava as costas da mão pelo rosto 

à secar os pontos de água, limpando as gotas na roupa. 

Impaciente que era, não tinha tempo pra conversar, 

mantinha as mãos ocupadas, 

para não sentir a dor que carregava na alma, 

já que dizia nunca saber ser feliz. 

Pobre, Maria.

O calor enchia a casa grande, 

cheiro quente e confortante. 

Era moído por um de nós, 

que brigávamos para moer os grãos naquele quartinho minúsculo 

cheio de carne em latas, 

todos os dias de manhã. 

Ela passava o café, então começava a cozer o almoço. 

Na roça, tudo tem hora, 

o estômago vazio não pode esperar pelo relógio. 

O trabalho é pesado, corta os dedos e enche a barriga de fome. 

Às dez da manhã a fila estava formada ao redor do fogão, 

a lenha nem tinha tempo de virar brasa e já estava queimando a merenda. 

Vida cheia a dela, de tanto que se sentia vazia. 

Pobre, Maria.

Íamos à grota pegar areia para arear as panelas, 

enchíamos as bacias para lavar as roupas no rio 

e quando tínhamos sede, com corda e balde, 

puxávamos água da cisterna pra encher o pote.

Não tínhamos eletricidade e nem banheiro, 

os banhos eram tomados no tanque ou no cercado de palha, 

construído para que tivéssemos um pouco mais de privacidade. 

As necessidades eram feitas no mato. 

Durante a noite, iluminado apenas pelo luar ou uma lanterna velha. 

Tudo dependia da lua. 

Íamos para a cama cedo, 

nove horas eram as três da manhã da balada de hoje. 

Íamos pro curral antes do sol apontar no horizonte. 

Os homens com bancos amarrados à cintura e baldes grandes nas mãos. 

As crianças com sorrisos travessos e um copo à espera do leite fresco, 

continuavam a tagarelar. 

Eu ficava ali, trepada na cerca, observando e roendo, 

às vezes uma fruta, às vezes as unhas, às vezes um pão. 

Nunca gostei de leite ou café, mas gostava do nascer da aurora, 

dos cheiros que eram tão meus quanto meus próprios sonhos, de ir e não voltar, 

de enfrentar as tempestades do mar em vez da quietude do lar. 

Dizia que eu era a favorita.

Minha neguinha, 

era assim que me chamava,

a minha avó Maria.




Este post foi escrito com base no tema "Uma saudade recorrente", do Desafio Criativo proposto pelo Projeto Escrita Criativa.



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