Amigo Imaginário

Tive pesadelos, daqueles que me atormentam durante todo o dia. Aqueles costumeiros pesadelos que você sabe tão bem.


No sonho, um homem armado tentou me estuprar. Não era um desconhecido, mas não sei dizer quem era. Ele estava aqui no apartamento, era um amigo íntimo. Ele tinha as chaves e não bateu à porta para entrar. Estava bêbado e com um revólver preto na mão. 


Ele me olhava estranho, olhar de animal que observa a presa. Como se desperto do transe, sem dizer palavras, caminhou em direção a sala à procura dos discos de vinil. Enquanto ele procurava a canção certa em meio a tantas opções, simplesmente deixei pra lá, tirei minhas roupas e fui para o banho. 


Sorrateiro, ele se aproxima, bloqueando a porta. Ele diz alguma coisa que não consigo ouvir, meu olhos e minha atenção estão focados na arma que se move em todas as direções com os gestos que ele faz com a mão. Então ele diz “estarei na sala, esperando você terminar.”


Apressada, tranco a porta. Ele retorna, exige que a porta seja destrancada. Meus dedos tremem, meu corpo treme. A madeira balança, quase cedendo a força dele. Estou apavorada. 

Prendendo a respiração, destranco lentamente a porta e digo que serei rápida no banho. Mas ele me ataca, toca todo o meu corpo e eu grito e tento afastá-lo de mim. 

Então ele sai, sorrindo. Se distrai com a música novamente. 


Eu corro pro quarto, procuro meu telefone em meio a bagunça de roupas sobre a cama. Me enrolo numa toalha vermelha, muito pequena para cobrir o meu corpo, alcanço o celular e saio em disparada porta a fora. Desço as escadas pulando do topo ao chão, vários andares, como uma praticante de Parkour. Estou à procura do porteiro, ele é confiável e vai me ajudar. Mas não o encontro. Desci demais e já estou na rua. Nevou e o chão tá cheio de lama, vestígio das idas e vindas dos carros. Corro descalça. Me aproximo de um casal que sequer me olha, entretanto, um homem de cabelos loiros me pergunta se preciso de ajuda. Ele sorri, mas não é um sorriso honesto. Ele ocupa meu tempo conversando, fazendo perguntas. Quando percebo, o homem armado está caminhando em nossa direção e ambos estão sorrindo, eles planejaram isso juntos. 

Então eu acordo. 


Respiro fundo, quero chorar. Me levanto, tomo um copo d’água e escrevo algumas palavras. Distraio a minha mente com o celular. Penso em te enviar uma mensagem, te contar sobre o sonho, como já fiz outras vezes. Mas desisti. Eu não estou mais em sua vida. Mesmo que eu deposite em você toda a confiança que há em mim, você precisa deixar de ser o meu lugar seguro quando eu não estou bem ou assustada. 






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